12.10.09

Dos Bondes ao Hippie Drive-In (*)


Recebi de Fred Sizenando alguns tópicos sobre o livro: Dos Bondes ao Hippie Drive-In a ser lançado no próximo mês de novembro, no Clube de Engenharia. (Manoel Neto)


A idéia surgiu do desejo de registrar e compartilhar as histórias e fatos pitorescos envolvendo o cotidiano de pessoas da cidade do Natal, narradas oralmente pelo nosso pai, João Sizenando Pinheiro Filho, funcionário público, ex-remador do Centro Náutico Potengí, e que viveu quase um século na nossa capital, convivendo com figuras humanas que caracterizaram a alma da nossa província.
Naturalmente evoluímos na concepção do livro e passamos a pesquisar e escrever abrangendo os períodos em que nós mesmos vivenciamos ou participamos da história.
A nossa infância e adolescência nos anos 1960 e 1970 em Natal, os vizinhos, o ambiente estudantil, as peladas de rua, a turma da praia, as matinês do ABC, o Hippie Drive In, a SCBEU, as paqueras. Como na música de Oswaldo Montenegro, fizemos um esforço de memória para relacionar uma lista nossos amigos mais próximos desde a infância até o período inicial na Universidade. A partir desta lista, passamos a recapitular os detalhes da nossa vida em diferentes fases. Para garantir uma maior amplitude nos conteúdos dos relatos, nós procuramos ao longo de oito anos, localizar e conversar com esses velhos amigos, alguns deles não tínhamos contato desde 1959. Pesquisamos nos jornais, livros e revistas da primeira metade do século XX e localizamos pessoas que viveram em Natal antes e até a II Guerra Mundial.
O resultado disso tudo é a concretização do livro “Dos Bondes ao Hippie Drive In”, a ser lançado no próximo mês, onde abordamos de forma leve e curiosa a evolução do cotidiano da nossa cidade cobrindo o período desde 1915 até 1975. As mais de 350 fotografias inseridas - com contribuição de diversos colaboradores - consolidam o diferencial da publicação.
“Dos Bondes ao Hippie Drive In” contém uma série de crônicas que descrevem episódios curiosos, figuras humanas marcantes, hábitos e costumes, tendo como pano de fundo os principais fatos históricos ocorridos na cidade. São sete capítulos, cada um contendo uma média de 10 textos distintos. Os capítulos são: “Natal dos Bondes”, “Natal dos voos transatlânticos e dos primeiros cinemas”, “Natal dos comunistas e dos americanos”, “Natal dos nossos pais”, “Natal da nossa infância”, “Natal dos gibis e do cinema Rex” e “Natal Pop”.
Na parte inicial é abordada a cidade no início do Século XX quando os bondes puxados a burros começavam a ser substituídos pelos bondes elétricos. Os hábitos da população, curiosidades, as formas simples de lazer e diversão. Vale à pena conferir também uma síntese apresentada das edições do ano de 1916 do pasquim “apimentado” denominado “O Parafuso” com editoriais, fofocas, enquetes, anúncios de filmes e notícias que ilustram bem o cenário cultural e político da época.
Figuras populares que caracterizavam o dia a dia dos anos 1920 e 1930 são descritas com apresentação de causos. Figuras como Gonçalo Pé de Pato, um mulato feio, cheio de bichos de pé, que era metido a bonito e namorador. Outra pessoa resgatada no livro é Sinfronio Barreto, considerado a figura mais popular e caridosa de Natal depois do padre João Maria. As aventuras na juventude de Paulo Lira (1903 -1979) - o mais famoso pianista da cidade - e sua turma no início do século XX são lembradas. As inaugurações do Estádio Juvenal Lamartine, do Cais do Porto e do primeiro sinal de trânsito na cidade são descritas e documentadas com fotografias.
Um capítulo especial com muitas informações cobre a história do cinema em Natal, desde a primeira exibição em um Depósito de Açúcar na Ribeira no final do século XIX passando pelas exibições do Polytheama e Royal Cinema.
Na sequência uma cobertura interessante sobre os voos transatlânticos dos hidroaviões provenientes da Europa e Estados Unidos. A recepção e detalhes curiosos dos aviadores pioneiros. Também são relatados: o incrível “raid” Natal-Rio numa pequena iole; os antigos carnavais; o surgimento da telefonia e as primeiras obras de saneamento da cidade.
O episódio do Levante Comunista de 1935 nós ilustramos a partir da apresentação de fatos pitorescos envolvendo pessoas comuns. Segue ainda um passeio sobre a vida em Natal durante a II Guerra Mundial e resumo de alguns arquivos secretos da Base Aérea de Natal.
Chegando ao período pós-guerra, o livro alcança o prefeito Djalma Maranhão, o programa “De pé no Chão também se aprende a ler”, a participação da “Aliança para o Progresso” no governo Aluísio Alves, a revolução de 64, com destaque para as agitações dos estudantes do Atheneu.
Quem era garoto ou adolescente nos anos 1950 e 1960 em Natal vai se deliciar com as crônicas envolvendo nossas recordações sobre a infância na Cidade Alta, Praça Pedro Velho, Jardim de Infância Modelo, escolinha da professora Janoca e “Jerônimo o Herói do Sertão”. Destaque especial para os jovens “cientistas” da Rua Felipe Camarão que montavam pequenos foguetes para serem lançados na Praia do Forte e em Mãe Luísa. Mais interessante ainda recordar os tempos dos seriados no cinema Rex, a curtição dos gibis e das peladas de rua.
O capítulo denominado “Natal Pop” cobrimos principalmente a Natal da geração “paz e amor”, o primeiro biquíni na cidade, a Sociedade Cultural Brasil - Estados Unidos (SCBEU), os primeiros surfistas, os festivais de música Popular. Destaque maior para a história do Rock em Natal, com muitas curiosidades - como o Irmão Marista que financiou a primeira banda da cidade - e detalhamento dos principais conjuntos que fizeram a trilha musical de toda uma geração.
Aqueles que conheceram Jerônimo o Herói do Sertão, o Cinema Poti, as tartarugas da Praça Pedro Velho, o Sebo de Cazuza, as matinês no ABC, as “Anastomoses” no América, o “Seu Talão vale um Milhão”, a loja de discos de Helisom, e o “Hippie Drive In”, certamente não deixarão de se emocionar. E irão relembrar não apenas os fatos narrados, como também inúmeros outros momentos que facilmente se acenderão em suas mentes como um simples duplo clique para acessar algum arquivo de computador.

(*) Carlos e Fred Sizenando, biólogo e engenheiro, respectivamente. Foto: Cidade da Criança - Lagoa Manoel Felipe atualmente completamente abandonada cerceando neste 12 de Outubro as crianças de lá comemorarem o seu dia.

10.10.09

Feriadão


Para todos: Um excelente feriadão!
Contribuição de Iracema Dantas de Araújo

9.10.09

A Formação do Estado Republicano e a ascensão dos Maranhão ao poder

Pedro Velho - Ferreira Chaves - José Augusto de Medeiros - Juvenal Lamartine

A Proclamação da República em 1889 traz o fim da monarquia, dando às classes dominantes locais um maior dinamismo político. Mas o primeiro presidente, Deodoro da Fonseca, luta por um governo centralizador, com poderes plenos. Em 1894, com Prudente de Morais, o grupo da descentralização chega ao poder, consolidando-se nas eleições seguintes.
A descentralização contribuiu para o surgimento das primeiras oligarquias republicanas, onde grandes Estados se unem para comandar o país, e nos pequenos acontece a união entre os coronéis locais para os comandos estaduais.


Até a implantação da República não existia o Partido Republicano no RN, apenas focos isolados, destacando Caicó, onde Januário da Nóbrega, acadêmico de Direito em PE e filho seridoense, tentava, sem sucesso, a implantação do partido, desde 1886.


O Partido Republicano só foi oficialmente fundado no RN no início de 1889, em Natal, com Pedro Velho, que ainda criou o jornal "A República", para divulgação partidária.

Como o Partido Republicano assume o poder nacional, Pedro Velho é escolhido Governador do Estado. Mas, contrariando seus aliados logo ao escolher seu secretariado, Pedro Velho não convida aliados republicanos (deste partido chama apenas alguns familiares seus). A base de seu governo seria de políticos tradicionais, grandes latifundiários do agreste e os coronéis do Seridó.


Na política federal, Pedro Velho se associa ao PRP paulista, grupo representante da descentralização, o que justifica a sua deposição por Deodoro, este representante do centralismo.


Mas, com a renúncia de Deodoro e a ascensão de Floriano, Pedro Velho é reconduzido ao governo do RN. No governo seguinte, o de Campos Sales, define-se a política de descentralização, contribuindo assim para o predomínio da família Maranhão no governo do Estado, até 1914.


O declínio da oligarquia Maranhão e a ascensão do "Sistema" Político do Seridó
Com o objetivo de se manter no poder, em 1914, os Maranhão buscam lançar ao governo alguém de sua confiança da família, pretendendo voltar ao poder nas eleições seguintes. Os nomes apontados são contestados pelos coronéis do Seridó que, por sua vez, querem apontar outro nome.


Por outro lado, José da Penha, que era potiguar de nascença e deputado pelo Ceará, indica Leônidas Hermes da Fonseca ao governo do Estado, o que não é aceito pela oligarquia do Estado e é, inclusive, contestado pelo Presidente da República Hermes da Fonseca, que era o pai de Leônidas.


Joaquim Ferreira Chaves é o nome indicado pelo Seridó. Os Maranhão recorrem ao Rio de Janeiro para consultar a cúpula federal; esta, no entanto, apóia o nome de Chaves. José da Penha denuncia fraudes no governo do Estado mas, os correligionários de Chaves, José Augusto e Juvenal Lamartine, reorganizam o sistema no Seridó, impedindo que José da Penha se articule no RN. Este é obrigado a sair do Estado, pois corre risco de vida.


Chaves é eleito governador do RN, rompe posteriormente com os Maranhão, tirando-lhes o monopólio do sal e da carne verde. A reforma da constituição enfraquece mais ainda os Maranhão, impedindo candidaturas de parentes até o 3º grau, criando também a vice-governadoria - que era representada pelo presidente do legislativo - e reduzindo o mandato do governador para quatro anos.


Chaves torna-se o novo chefe político do RN. A ascensão de Chaves demonstra que o poder político do RN, pautado no complexo açucareiror/têxtil, começa a despencar. Ocorre que o Seridó começa a tecer sua hegemonia baseada no algodão/pecuária, hegemonia esta que contribuiu para o aumento e diversificação das atividades econômicas de exportação. A 1ª Guerra Mundial contribuiu para o preeminência da cotonicultura, fortalecendo a máquina arrecadadora do Estado.


Em 1919, Chaves rompe com Tavares de Lira e Alberto Maranhão, devido o nome de Paulo Maranhão não compor a chapa de deputados do RN. Chaves impõe um nome para lhes suceder. Os Maranhão apresentam outro nome, mas são derrotados por Antônio de Souza, candidato de Chaves.


Em 1923, a convenção do PRF aponta Chaves como candidato a governador do RN o que não é aceito pelos coronéis do Seridó. Nesse processo intervêm o Catete que reconhecesse as lideranças de José Augusto e Juvenal Lamartine. Assim, seguros do suporte político conseguido, lançam José Augusto ao governo, que vence as eleições.


A ascensão José Augusto/Lamartine coroa a oligarquia algodoeira/pecuária. Mesmo tendo Chaves contribuindo para o desenvolvimento do Seridó, a oligarquia algodoeira passa a valorizar os intelectuais da região tornando o Seridó uma região forte e respeitada na política do nosso Estado.


Por: Vitamar de Oliveira, Gilson de A. Pereira, Aristoteles E. de Medeiros Filho - História do RN.

6.10.09

Januário Cicco (*)


Januário Cicco nasceu na cidade de São José de Mipibu, em 30 de abril de 1881. Era filho do italiano Vicente de Cicco e da norte-riograndense Ana de Albuquerque de Cicco. Veio para Natal ainda na adolescência, no final do século XIX. Posteriormente, iniciou o Curso de Humanidades na Paraíba, onde resolveu dedicar-se ao sacerdócio e ingressar no Seminário, abandonando-o, porém, um ano depois. Voltou a Natal e concluiu o curso secundário no Atheneu Norte-riograndense em 1899. Formou-se na Faculdade de Medicina da Bahia, em 1906. Começou a atuar logo como clínico e cirurgião em Natal, com consultório na Rua das Virgens, na Ribeira. Casou-se com Isabel Simões, pernambucana, com quem teve uma única filha, Ivette Cicco. Em 1937, em um intervalo de um ano, morreram sua filha e esposa A partir de então, passou por um período de reclusão, dedicando-se exclusivamente ao trabalho.
Além de clínico geral, desempenhou funções na obstetrícia, atuando, também, como cirurgião. Fundou e dirigiu os dois primeiros estabelecimentos hospitalares de grande porte de Natal: O Hospital da Caridade Juvino Barreto, no monte Petrópolis (hoje Hospital Universitário Onofre Lopes), em 1909 e a Maternidade de Natal, iniciada em 1932 e inaugurada em 1950. No início da década de 40, a Maternidade estava pronta para funcionar, mas o esforço de Guerra, representado na Capital do Estado pela construção do Campo de Aviação de Parnamirim com uma base americana, fez com que a Maternidade fosse ocupada como Quartel General das Forças Aliadas e Hospital de Campanha. Com o final da II Guerra Mundial e após intensa campanha Januário Cicco conseguiu retomar o prédio, restaurá-lo e colocá-lo para funcionar, o que ocorreu somente em 1950.
Depois criou o primeiro serviço de Pronto-Socorro (1945), a Escola de Auxiliares de Enfermagem (1950) e o Centro de Estudos da Sociedade de Assistência Hospitalar, base onde foi idealizada a fundação da Faculdade de Medicina (1951). Acompanhou pessoalmente todas as etapas de construção dos referidos prédios. Sua contribuição científica inclui sua tese de doutoramento “O destino dos cadáveres” – que defendia a cremação como meio de higiene e profilaxia da superpovoação dos cemitérios -, uma monografia, “Como se higienizaria Natal”, e outras publicações, como: “Notas de um médico de província”, “Puericultura no ano de 1909”, “Abrigo Padre João Maria” e os romances “Eutanásia” e “Herança Mórbida”. Januário Cicco, faleceu em 01 de novembro de 1952, em Natal.

(*) Uma Cidade Sã e Bela - Angela Lucia Ferreira, Anna Rachel Baracho Eduardo, Ana Caroline Dantas Dias e Geoge Alexandre Ferreira Dantas - com notas do blog - Foto: Maternidade Januário Cicco nos anos 50.

3.10.09

Praieira dos Meus Amores (*)


Para a maioria dos norte-rio-grandenses, Otoniel Menezes é e continuará sendo sobretudo o criador dos versos da canção "Praieira", de 1922, espécie de hino da cidade do Natal, (aliás, pelo decreto-lei nº 12, de 22 de novembro de 1971, o governo municipal de Natal considerou a "Praieira", o "Hino da Cidade"), com música de Eduardo Medeiros.
Originalmente intitulada "Serenata de Pescador", "Praieira", como ficou conhecida popularmente, foi escrita para saudar os pescadores natalenses que, em três barcos a vela, viajaram de Natal ao Rio de Janeiro, dentro das comemorações do Centenário da Independência, em 1922.
Otoniel Menezes, certa vez, revelou que uma das alegrias de sua vida era ouvir, nas madrugadas natalenses, gente do povo cantando sua "Praieira" em serenatas. (**)


SERENATA DO PESCADOR

Praieira dos meus amores,
Encanto do meu olhar!
Quero contar-te os rigores
Sofridos a pensar
Em ti sobre o alto mar...
Ai! Não sabes que saudade
Padece o nauta ao partir,
Sentindo na imensidade,
O seu batel fugir,
Incerto do porvir!

Os perigos da tormenta
Não se comparam querida!
Às dores que experimenta
A alma na dor perdida,
Nas ânsias da partida
Adeus à luz que desmaia,
Nos coqueirais ao sol-pôr...
E, bem pertinho da praia,
O albergue, o ninho, o amor
Do humilde pescador!

Quem vê, ao longe, passando
Uma vela, panda, ao vento,
Não sabe quanto lamento
Vai nela soluçando,
A pátria procurando!
Praieira, meu pensamento,
Linda flor, vem me escutar
A história do sofrimento
De um nauta, a recordar
Amores, sobre o mar!

Praieira, linda entre as flores
Deste jardim potiguar!
Não há mais fundos horrores,
Iguais a este do mar,
Passados a lembrar!
A mais cruel noite escura,
Nortadas e cerração
Não trazem tanta amargura
Como a recordação,
Que aperte o coração!

Se, às vezes, seguindo a frota,
Pairava uma gaivota,
Logo eu pensava bem triste:
O amor que lá deixei,
Quem sabe se inda existe?!
Ela, então, gritava triste:
Não chores! Não sei! Não sei...
E eu, sempre e sempre mais triste,
Rezava a murmurar:
“Meu deus quero voltar!”

Praieira do meu pecado,
Morena flor, não te escondas,
Quero, ao sussurro das ondas
Do Potengi amado,
Dormir sempre ao teu lado...
Depois de haver dominado
O mar profundo e bravio,
À margem verde do rio
Serei teu pescador,
Ó pérola do amor!

(*) Otoniel Menezes - (**) Fotolog/ninocha - Foto: Canto do Mangue por Roberto Satoli