15.12.10

Anos Dourados III



Nos anos setenta a Praia do Meio possuía dois espaços culturais: a Galeria do Povo e o Artelier. Também abrigando o primeiro restaurante macrobiótico de Natal, onde o pessoal ia se liberar das toxinas consequentes dos excessos noturnos com os pratos do proprietário Véscio Lisboa. Na segunda metade dos anos setenta, surgiu o Festival do Forte, idealizado pelo músico Luiz Lima, o artista plástico Sandoval Fagundes e o escritor Carlos Gurgel.
"O festival acontecia na terceira lua de cada mês e era um momento de muita música, muita poesia e muita loucura, depois disso, nunca houve nada em Natal tão contundente para nossa cultura como o Festival do Forte", recorda hoje Gurgel, com os olhos cheios de nostalgia. Yuno Silva, estudante de Comunicação, era criança nesse período, mas lembra de quando era levado pelos pais junto com o irmão para curtir o festival, "Os moleques ficavam pulando naquela casa de armar no meio do Forte. Era incrível, sendo criança, ver de perto artistas como Raul Seixas, Gil, Jorge Mautner, Jards Macalé...são tempos que não voltam mais."
Durante os anos setenta e oitenta, a Praia dos Artistas era um lugar concorrido durante toda semana. A jornalista Cione Cruz diz que " a partir das quintas feiras, íamos à praia de dia para tomar sol e à noite exibíamos nosso bronzeado nos bares e boates de lá". Havia ainda uma turma que fazia da praia dos artistas a sua casa, gente que chegava de manhã, depois da aula, de mochila nas costas, trocava o calção de banho e ia jogar frescobol nas areias ou surfar naquelas ondas. Um bom exemplo desse tipo de frequentador era o jornalista Flávio Rezende, assíduo jogador de frescobol, "chegava por volta da 11, 12 horas, depois das aulas do curso de Comunicação da UFRN e ficava até às 18 horas". Nos anos oitenta se intensificou também a prática do surf, daí vieram o campeonatos ao bar caravela, transmitidos nos alto falantes. "Sinto saudade do rock muito alto que tocava durante os torneios, dos amigos sem hora pra ir embora, as paqueras na beira da praia e os beijos na boca apaixonadíssimos, que até deixava a gente meio fraco..."
Com a ida dessas décadas, foram-se também a grande maioria dos frequentadores do lugar. A maturidade e as ocupações iam distanciando pouco a pouco os antigos. E a falta de segurança inibia a formação de uma nova geração de praieiros. A reurbanização e construção dos quiosques de cimento, ao invés das barracas, não foram suficiente para assegurar a reestruturação da área.
Natal acontecia agora bem longe dali. As diversões eram outras, as praias também. A burguesia ia de carro até os distantes litorais norte e sul, procurando aquilo que já não se via mais no urbano: segurança, tranquilidade. O desfile de beleza nas praias urbanas, as paqueras no calçadão, davam lugar a um outro tipo de oferta. O "quem me quer" adquiria outra feição com a explosão do turismo e a procura dos estrangeiros pelas mulheres locais.

23.11.10

De Riffault ao Refoles - Os Franceses *

A utópica França Antártica de Villegagnon (1555) não tinha dado certo. Por essa época, todo o litoral brasileiro que não tinha o domínio português foi sistematicamente batido pelos franceses, chamados de “intrusos” pelos lusitanos. Não fundavam povoados, vilas, cidades. Aventureiros, marinheiros corsários da Normandia – em nome do Rei de França - interessava-lhes, apenas, o tráfico da ibirapitanga e dos búzios. Nada impunham aos silvícolas, levando vida mansa, fazendo amizade com os tuxauas, beiço furado, bebendo cauim, banzando nas tipóias, cabeça feita de chá de jurema na companhia dos pajés. Não era raro, nessa quadra, entre os potiguaras, aparecerem cunhãs e corumins de cabelos louros e olhos azuis...
Jacques Riffault aqui deixou fama e temor. O Refoles – antes Nau do Refoles e sítio onde hoje está a Base Naval de Natal, numa curva do “Potengi amado” – lhe recorda o nome e as estripulias entre nós. Destemido, em 1597, partindo desse ancoradouro, comandando uma dúzia ou mais de embarcações piratas, atacou a Fortaleza de Cabedelo, na vizinha Paraíba. Foi um dos idealizadores, ainda nos idos de 1594, da chamada França Equinocial, na “ilha do Maranhão”, que conhecia bem. Chegou, inclusive, a propor a empreitada ao Rei Henrique IV, em parceria com um dos seus tenentes, Charles des Vaux. Desapareceu depois, no tempo e no vento, sem adivinhar que séculos depois, no seu porto da curva do rio, descansariam das formidáveis travessias as grandes asas das “libélulas de aço” de Mermoz.
* Por Laélio Ferreira

20.10.10

O HQ 129 X e a musica fractal dos sapos.

Por José Bezerra Marinho

O primeiro e mais constante, vinha do quarto ao lado ao que eu nasci.

O do receptor HQ129 X do meu pai, radioamador.

Cresci com aquela música, ruídos, encantamento ao saber que dali, daquele seu quartinho ele falava e ouvia o mundo. Minha mãe me lembrava sempre que, no dia que nasci meu choro – que meu pai chamava QRM, código de interferência no jargão de rádio - foi mandado por ele para os seus colegas mundo afora. Quando soube disso fiquei todo besta. Só depois fiquei insuportável.

A chuva que, desavisadamente, desabava nas noites da Afonso Pena, trazia com ela a musica fractal dos sapos, redivivos, no leito de uma avenida que virava lagoa durante a noite entre Açu e Mossoró, não os rios ou municípios, mas as ruas do Tirol.

Como era possível? Na cabeça do menino de minha saudade não havia resposta. Até ontem não havia chuva, não havia lagoa, não havia sapos. De onde eles vinham? Como sabiam que a lagoa se formara?

Seco, alto, enorme aos meus olhos, com vastas mãos, meu pai explicava: “estavam aí”, apontando do terraço da casa para a rua. Estado latente, quietos, esturricados, ainda mais feios, mas vivos!

Independente de chuva e sapos, todos os dias a manhã se anunciava ao som de madeira sendo serrada.

Em frente, exatamente em frente à minha casa, a serraria de Plínio Saraiva. A madeira gemia ao encontrar a serra. Um gemido mais baixo que ia num crescendo até a tora ser vencida. A madeira serrada era posta em pequenas caixas que eram entregues nas casas. É... esconder pra que? Naquele tempo, a maioria dos fogões domésticos era a lenha.

Havia algo de irreal, custei mesmo a acreditar, quando pela primeira vez ouvi Aluízio Menezes narrando um ABC e América, gritar gooooooll, sem que antes tivesse ouvido a explosão da frasqueira da geral do “Estádio – e haja boa vontade – Juvenal Lamartine”.

Sons das tardes de Domingo, ABC e América, noites de quarta feira, Riachuelo e Atlético, sempre havia um coro, ohhhhh, nas bolas perdidas, e explosão apoteótica num gol de Cezimar, ou Saquinho, ou Jorginho, ou Alberí.

Alguém aí já (ou) viu avião “pedindo carro”? Esse era outro som mágico. O avião de João Pinheiro “pedindo carro”.

Chegando a Natal, o aviador e os passageiros do seu táxi aéreo, pousariam em Capim Macio e precisavam de um “carro de praça”.

Meu vizinho, João sobrevoava sua casa e, a baixa altitude, balançava as asas e rraumrraumava o motor, era o sinal. D. Cleide ia pra minha casa e ligava para o 2100 ou 2300, e pedia um “carro em capim macio para João Pinheiro”.

O fim da tarde chegava com Cambraia anunciando o “Jornal de Natal” de Djalma Maranhão.

Cambraia - perfeito biótipo e porte de um príncipe banto - soltava uma cantiga que, muitos anos depois, penso ter reconhecido em Catoca, nas Lundas, no coração de Angola.

Mas aí eu já tinha crescido, os sapos haviam sido expulsos pelo asfalto e havia visto quando meu pai, poucos dias antes de sua morte, desligou para sempre seu HQ 129 X.

12.6.10

Prof. Luiz Soares: Paladino do Escotismo - II

O professor Luiz Soares em 1910 foi orador da primeira turma da Escola Normal de Natal.
Em 1907 ele reorganizou a Liga de Desportos Terrestres do RN sendo eleito seu Presidente.
O trabalho realizado na Liga levou Juvenal Lamartine, seu parente, a construir o Estádio em 1929 no Tirol.
O trabalho de Luiz Soares foi reconhecido pelos opositores de Lamartine que o indicaram para um cargo federal na Escola de Artífices, hoje IFRN. Mais delicadamente recusou para continuar no ensino do estado mesmo ganhando menos.
Foi eleito Vereador chegando a Presidência da Câmara Municipal de Natal.
Em 1950 viajou a Roma a convite de seu filho Pedro Segundo, para localizar e movimentar o processo de beatificação do Padre João Maria.
Os escoteiros tiveram participação intensa na vida natalense, especialmente em situações de calamidade, como em 1918, durante o surto de gripe espanhola que vitimou um grande número de pessoas. Em 1919 os escoteiros ajudaram a socorrer os flagelados da seca, abrigados pelo governo em péssimas condições de higiene em um terreno baldio do Barro Vermelho.
Foi por essas e tantas boas ações que Luiz Soares recebeu a comenda do Tapir de Prata, do General Baden Powell, criador do Escotismo - a mais alta honraria que um escoteiro pode receber.
Professor Luiz Soares, um exemplo para todos!



Veja também neste blog: Prof. Luiz Soares: Paladino do escotismo."

Enviada por Alexjunior Pereira de Lima, Diretor Presidente do 12° Grupo de Escoteiros Professor Luiz Soares.

3.6.10

A Feira da Tatajubeira e o Mercado de Ferro

A mais antiga feira livre de Natal foi, talvez, a que se fazia debaixo de uma tatajubeira antiguíssima e frondosa. Ela existiu desde o século XIX, na Rua Frei Miguelinho, na Ribeira. Diariamente, vinham para ali pescadores e pequenos produtores rurais, d'aquém e d'além Potengi, vender seus produtos. Nas noss pesquisas sobre Natal, encontrmos nota de 1912 sobre esta feira, e por repuá-la de muito valos, resolvemos transcrevê-la na íntegra:

"Não há hoje em Natal um só dos nossos bisavós que nos diga quatro palavras acerca da infância dessa árvore que ora serve de casa de mercado ao mais comercial e ao mais movimentado bairro desta cidade, que é a primeira do Estado. Segundo os cálculos, a árvore conta mais de duzentos anos de vida e, por sua sombra benfazeja, passaram gerações de proletários e de boêmios, uns que junto a seu tronco encostavam a descansar das fadigas do trabalho, outros, amigos do ócio e do álcool que, em noite de luar, cantavam ali canções nostálgicas ao som do violão sugestivo. Antes de ser como é hoje, casa de mercado de uma cidade fantasticamente progressiva, foi, como nos dizem os velhos pescadores, oficina de carpinteiro onde se construíam as quatro jangadas que se lançavam, a cada ano, nas águas mansas do Potengi. Ainda em nosso dias, ela tem na sua crosta rugosa os golpes antigos da enxó e dos machados dos operários, que nela experimentavam o aço da ferramenta. Nesses dias remotíssimos em que havia grandes selvas na avenida de hoje, a veneranda tatajubeira era ainda moça e bem amada e não tinha, por conseguinte, sofrido o castigo da lama que ora a invade. Se for em dia de chuva especialmente, ele (o forasteiro) passará forçosamente pela Tatajubeira - essa cloaca onde alguns quitandeiros vendem peixes, carnes e verduras. O estado desse local é mais próprio para um estábulo do que para um lugar em que se faça uma feira. O lamaçal que ali se forma com a menor chuva entedia, causa nojo e faz pensar que habitamos um brejo sem que haja a menor autoridade higiênica ou municipal que tome a iniciativa." (A República, 1912).

Consciente de que a população da Ribeira não podia continuar se abastecendo na Feira da Tatajubeira, onde não havia as mínimas condições de higiene, o presidente da Intendência, coronel Romualdo Lopes Galvão, resolveu construir um mercado de ferro, que foi erguido no quarteirão n.° 15 do bairro da Ribeira, na avenida Almino Afonso, fazendo esquina com a rua Ferreira Chaves. No dia 25 de fevereiro de 1914, na sessão "Várias", o jornal A República publicou a seguinte matéria sobre este mercado:

"Em 1923, no relatório que apresentou ao Conselho de Intendência Municipal, o vice-presidente da Intendência, em exercício, o farmacêutico Joaquim Ignácio Torres, afirmava que o "mercado de ferro que em 1915 foi inaugurado na Ribeira, tinha sido pela administração anterior entregue à Higiene Federal para nele funcionar um posto de assistência médica, com toda a sua instalação" (TORRES, 1923, p. 8). Com a entrega do prédio do mercado à saúde pública, renasceu a Feira da Tatajubeira a partir de março de 1924 por determinação do presidente da Intendência, Cel. José Lagreca. A finalidade desta restauração era o barateamento do custo de vida. Para isso, ficaram livres de impostos e de sujeira os produtos vendidos à sombra da velha tatajubeira, mercê da fiscalização municipal (A República, 29 de março de1924).

Na segunda vez que governou Natal (de 30 de outubro de 1935 a 03 de janeiro de 1942), o prefeito Gentil Ferreira de Souza fez muito calçamento a paralelepípedo no bairro da Ribeira. Neste período, ele calçou as ruas Chile, Frei Miguelinho, 15 de Novembro, Almino Afonso, Ferreira Chaves, Aureliano, a avenida Duque de Caxias e a travessa Bom Jesus (A República, 29 de outubro de 1941). Onde havia calçamento antigo, feito de pedra preta, tosca, irregular, ele substituiu por calçamento a paralelepípedo. Com o calçamento da rua Frei Miguelinho e da avenida Almino Afonso, acabou-se a Feira da Tatajubeira. Para substituí-Ia, Gentil Ferreira construiu o mercado da Ribeira, no mesmo local, onde existiu anteriormente o Mercado de Ferro, construído por Romualdo Lopes Galvão. No dia 7 de setembro de 1940, Gentil Ferreira lançou a pedra fundamental deste novo mercado. O novo prédio, dividido em três amplos compartimentos, oferecia 41 locais de comércio para os locatários. Em janeiro de 1941, ele já estava pronto (A República, 09 de janeiro de 1941).

Com a decadência da Ribeira ao longo dos anos 60, a população ali residente foi diminuindo e, consequentemente, o movimento comercial de alimentos. Anos depois, o mercado da Ribeira foi transformado em repartição da Prefeitura.

Texto de Itamar de Souza, Nova História de Natal - Enviado por José Tarcísio de Medeiros