31.10.09

Saudades do Grande Ponto (*)

Foto: Grande Ponto - Anos 30

O Grande Ponto é um ponto tradicional de Natal, onde acontecem coisas do arco da velha, há muitos e muitos anos. José Guilherme não menciona com exatidão quando aconteceram os episódios por ele narrados - nem precisa. Mas devem se situar entre 1940 e 1960, por aí.
Quando chegamos a Natal, em fins de 1948, meu pai estranhava que os pedestres ficassem conversando, em pé, em grupelhos, no meio do Grande Ponto. E o pessoal não se afastava quando se buzinava, pedindo passagem. Afinal , não sabíamos porque os grupos ficavam estáticos "no meio da rua". Custamos a entender que aquilo era um costume local, e, portanto, uma questão cultural.
Da nossa época, José Guilherme citou Jaecy "O Fotógrafo Poeta", os cinemas Rex e Pax, a Sorveteria Cruzeiro, de Antônio China, a Casa Vesúvio, de Rômulo Maiorana, que foi morar em Belém, onde construiu um império constituído de jornal, rádio e televisão, o Botijinha, de Jardelino, o Estádio Juvenal Lamartine, onde jogamos algumas vezes pelo Guarany Esporte Clube, fundado por Levi Caminha e meu irmão Carlos Aloysio, enfrentando o infanto-juvenil do ABC de Ezequiel Ferreira de Souza, Paulo Eduardo Firmo de Moura e Fabiano Veras, o América, de Kléber de Carvalho Bezerra e Etevaldo Miranda, o famigerado Teté, também conhecido como "Vírgula" pelas suas pernas arqueadas, as Lojas Seta, onde muitos anos depois acompanhei, constrangido, a diligência de um oficial de Justiça na penhora de bens de uma ação executiva movida contra ela por Confecções Torre S.A., do Recife, da qual eu era advogado.
José Guilherme escalou um alegre time de "veados e outros animais honestos que formavam a ecologia daquela Passárgada: o mitológico Rei Momo Luizinho Doblechen, Pinóquio, Detefon, Madame Sônia, a Cartomante, e "seu" Martins, professor de Clodovil." Esqueceu Velocidade e Biguá, cujo apelido teve origem na sua semelhança física com o lendário paraense que formou a célebre linha-média tricampeã do Flamengo (1942, 1943 e 1944): Biguá, Bria e Jayme de Almeida.
José Guilherme falou famoso Coronel Guerreiro, pai de uma morena linda. Os irmãos da morena, cujo nome eu esqueço, mandavam que ela caminhasse na frente deles para dar porrada em quem a cantasse. Relembrou Ivanildo "Deus" advogado, que encontro, de vez em quando, na Rua da Imperatriz. Em Desenho, o maior presepeiro natalense. Nos desfiles de Maria Boa, em pleno Grande Ponto "que aos domingos, cinco da tarde, hora em que a nata da sociedade natalense se concentrava ali, passava devagarzinho, acintosamente, no seu "conversível", com motorista e tudo, abarrotado com as meninas mais respeitáveis e mais bonitas da cidade, a maioria importada, cuja porta-estandarte era Eurídice, gaúchona de 50 talheres". Além de Maria Boa, tínhamos Francisquinha, Belinha e Vanda, festejadas donas de pensão, devidamente protegidas pelos mais altos e circunspectos membros dos poderes executivo, legislativo e judiciário federais, estaduais e municipais.

(*) Arthur Carvalho, advogado e jornalista transcrevendo texto de José Maria Guilherme – Jornal do Comércio, Recife 28/10/2009 e enviado por Jardna Cavalcanti Jucá.

28.10.09

1935 - Ação Comunista e o Domínio de Natal

Quartel da Policia Militar 1935 - Atual Casa do Estudante


As raízes do movimento comunista de 1935 no Rio Grande do Norte possuíram, sem dúvida alguma, causas locais e que podem ser apontadas como resquícios da campanha eleitoral de 1934, quando predominou um clima de violência.

Mário Leopoldo Pereira da Câmara, apesar do mérito de algumas realizações efetuadas durante sua administração, foi responsável pela implantação de um clima favorável ao aparecimento de movimentos armados.

O substituto de Mário Câmara, Rafael Fernandes Gurjão, continuou perseguindo seus adversários políticos, a exemplo de seu antecessor. Rafael Gurjão contribuiu com o aumento do número dos descontentes, engrossando o grupo dos revoltosos. Chegou, inclusive, a extinguir a Guarda Civil, um órgão completamente descomprometido com a política, só porque havia sido criada por Café Filho, inimigo político do novo governante... Dentro desse contexto, as divergências arrastaram para o movimento pessoas que desconheciam a ideologia comunista, mas viam na ação armada uma maneira de derrubar o governo...

A mobilização comunista foi iniciada na noite de 23 de novembro de 1935, ocasião em que no Teatro Carlos Gomes - hoje Alberto Maranhão - estava acontecendo uma solenidade de colação de grau do Colégio Marista. O governador Rafael Fernandes Gurjão e o secretário geral do Estado, Aldo Fernandes, abrigaram-se na residência de Xavier Miranda, nas proximidades do teatro, e depois foram para o Consulado da Itália, sob os cuidados do cônsul Guilherme Lettieri. O prefeito Gentil Ferreira, também presente à solenidade, foi para o Consulado do Chile, sob a proteção do cônsul Carlos Lamas.

Coube ao major Luís Júlio, da Polícia Militar e ao coronel Pinto Soares, do 21º BC, a organização da resistência. Os combates estenderam-se por várias horas, até acabar a munição, quando as forças legais se renderam. As comunicações telefônicas foram cortadas, resistindo apenas a estação telegráfica de Macaíba, através da qual os legalistas pediram socorro à capital federal.

Durante os combates, o quartel da polícia militar resistiu, lutando contra um inimigo "muitas vezes superior em número", relata João Medeiros Filho. A resistência durou várias horas, terminando quando os policiais gastaram a última bala. Os legalistas fugiram pelo Rio Potengi.

Os rebeldes dominaram Natal e, no dia 25 de novembro de 1935, organizaram um Comitê popular Revolucionário, composto por Lauro Cortês, ex-diretor da Casa de Detenção, como ministro de Abastecimento e Quintino de Barros, 3º sargento, músico do 21º BC, como ministro da Defesa. O comitê se instalou na Vila Cinanto, até então residência oficial do governador.

Durante a vigência do governo revolucionário, a população da Cidade do Natal atravessou momento de grandes dificuldades, principalmente para a aquisição de gêneros alimentícios, uma vez que foram saqueados muitos armazéns e lojas que abasteciam a cidade. Entre os estabelecimentos saqueados figuram os seguintes: M. Martins & Cia.m Viana & Cia., M. Alves Afonso etc. O comércio de diversas cidades do interior também não escapou. Por onde os rebeldes passavam, implantavam o pânico.

No tempo em que os comunistas estiveram no poder, circulou um jornal intitulado "Liberdade", que publicou as seguintes palavras, transcritas por João Medeiros Filho: "Enfim, pelo esforço invencível do povo, legitimamente representado por Soldados, Marinheiros, Operários e Camponeses, inaugura-se no Brasil a era da Liberdade, sonhada por tantos mártires, centralizados e corporificados na figura legendária de Luís Carlos Prestes, o "Cavaleiro da Esperança".

Observação enviada por Laélio Ferreira de Melo: "O texto citado do jornal "A Liberdade" foi da lavra do Jornalista e Poeta Othoniel Menezes, meu pai. O autor não era e nunca foi comunista. Era, sim, um socialista-cristão e, na época, correligionário e amigo pessoal de Café Filho. Pelo que escreveu (quase todo o jornal) foi perseguido e punido com quase três anos de cadeia.


* Tribuna do Norte: História do Rio Grande do Norte

24.10.09

Relato sobre a Ribeira (*)

Grupo Escolar Augusto Severo e Escola Doméstica de Natal na Ribeira.

Em meados da década de 1960 a Ribeira abrigava os principais centros viários de Natal: a estação rodoviária, a estação da Rede Ferroviária e o movimento portuário. Podiam-se observas casas residenciais e conjuntos habitacionais em torno da Ribeira-Rocas, onde moradores, em sua maioria, eram funcionários da Rede Ferroviária Federal e outros estabelecimentos comerciais localizados na Ribeira.
Naquela época, o êxodo rural já era uma realidade. Muitos saíram do interior do estado a convite de parentes para trabalhar e estudar na Capital ou se aventuravam em busca de uma vida melhor, e, geralmente, iam trabalhar na Ribeira, pois lá era um centro comercial importante, onde se localizava o comércio “em grosso”, o da construção civil, as oficinas e os serviços mais ligados a economia e a infra-estrutura econômica de Natal.
A rodoviária movimentava um grande comércio ao seu redor com a venda dos mais diversos produtos. Perto dela ficava a estação ferroviária. O trem não se limitava a levar pessoas, transportava, também, mercadorias e cargas, de Natal para cidades do interior do Estado. Do mesmo modo vinham no trem, do interior, produtos para a Capital. Além disso, fazia o transporte interestadual indo para os Estados de Alagoas, Pernambuco e Paraíba.
Desde meados da década de 1950, o Porto de Natal é até hoje um local de embarque e desembarque para embarcações oriundas de outros Estados brasileiros e do Exterior, porém não comporta grandes embarcações por motivos estruturais. Muitos investimentos foram feitos para retirar a “Pedra da Bicuda” na boca da barra do Rio Potengi. Os principais produtos que movimentam o Porto são frutas e camarão. Hoje ainda se encontram algumas lojas de artigos para barcos e pesca na Ribeira.
O comércio da Ribeira iniciou-se com a venda de cereais e depois se diversificou. O horário de funcionamento era de 7 às 11:30 e de 13 às 17:30 entre 1950 e a década de 1980, que foi um período muito auspicioso para o bairro.
Havia um sério problema de alagamento nas proximidades da rodoviária e do Teatro Alberto maranhão, causando sérios transtornos aos moradores e ao comércio. O entorno da Praça Augusto Severo era área úmida e para os moradores e freqüentadores, na época de chuvas, principalmente, tornava-se necessário tirar os sapatos e levantar as bainhas das calças ou as saias, para poder caminhar sem molhar suas vestes.
Apesar de provinciano, o bairro, um dos principais da cidade, não poderia de deixar de acompanhar sua evolução estrutural, com os principais comércios e órgãos públicos. Por ser um bairro predominantemente comercial, a Associação Comercial não poderia ter surgido noutro local, assim como o Clube de Diretores Lojistas. A Junta Comercial também estava localizada na Rua Dr. Barata.
O Teatro era um espaço reservado à “elite”, e por longo tempo era impeditivos aos mais humildes que não faziam parte da “cultura da elite” e era através da música e da religião que eles davam sua rica contribuição para a cultura da Ribeira através de diferentes manifestações artísticas e culturais.
O prédio do Grupo Escolar Augusto Severo, antiga escola Modelo, foi transformado posteriormente na Faculdade de Direito. Diante da mesma Praça está localizado o prédio da antiga Escola Doméstica de Natal.
Nos primórdios, a área da praça e seu entorno eram ocupados por uma tribo Potiguara e ao lado passava um riacho que foi aterrado e como lembrança restou uma pequena ponte, hoje descaracterizada.
O atual prédio do Colégio Salesiano foi a residência de Juvino Barreto, sendo doada após sua morte a Ordem dos Salesianos com o intuito de se implantar um projeto social para a comunidade. Em frente, onde hoje é uma agência da Caixa Econômica funcionava a fábrica de tecidos de Juvino Barreto.


(*) Extraído do trabalho: Ribeira por Marcelo B. M. Tinoco, Maria Dulce P. Bentes Sobrinha e Edja B. F. Trigueiro.

20.10.09

O GALO da Torre da Igreja de Santo Antônio e seu doador (*)



No alto da torre, em volta do poleiro de azulejos, roda e vento doce do galo de bronze secular. Pertence a fisionomia do bairro e possui sua história, relembrada pelos velhos moradores da rua Santo Antonio, ainda em recordação nas palestras sereneiras, noite de lua cheia.
Lourival Açucena dedicou-lhe versos. Creio que não são únicos. Datam de mais de sessenta anos. Vamos ressussitar os versos, que dedicavam os nossos natalenses de outrora.

Caetano da Silva Sanches,
Governador português,
Foi quem aqui colocou-me,
Há mais de um século talvez

Cocorocó! Vou cantando
A minha bela toada,
Louvando com outros galos
A serena madrugada!...

Por todos os quatro ventos
Me vereis sempre emproado. . .
Não tenho “Gogo” e meu canto
Solto bem atenoado!

Cá do alto lobrigado,
Traquinadas do demônio
Vos mandarei telegrama
Da torre de Santo Antonio!...


Esse versinho devem ser posteriores a 4 de agosto de 1878, dia em que se inaugurou em Natal o “telégrafo-elétrico”.
É esse Caetano da Silva Sanches? O “governador português” era natural de Cascais, em Portugal, filho do capitão Francisco da Silva Sanches e de D. Maria Joaquina Sanches. Fez vida militar e era sargento-mór, reformado do Regimento do Recife, ao ser nomeado Governador da Capitania do Rio Grande do Norte, em 12 de agosto de 1791. Efetivado no posto a 27 de março de 1797, ratificada a posse a 7 de fevereiro de 1798, tornou-se muito estimado em Natal.
Casara em Recife com D. Maria Francisca do Rosário Lages, filha do sargento-mór Francisco Gonçalves Lages. Teve dois filhos: Pedro morto ainda criança e Micaéla Joaquina Sanches que se casou com o capitão-mós Manoel Teixeira de Moura.
Quando Caetano da Silva Sanches chegou a Natal já a igreja de Santo Antonio existia. Em julho de 1763 menciona-se, em documentos, em documentos, a rua da Igreja de Santo Antonio. Na fachada principal, por cima da porta, há, muito apagada, a data de agosto de 1766.
O Capitão-mór era devoto de Santo Antonio, santo nacional português. Ajudou por todas as formas, a construção da Torre. Esta ficou terminada em janeiro de 1798.
Em 23 de agosto de 1799, Caetano da Silva Costa Sanches fez testamento. Era um homem robusto e ainda moço. Dele partira a idéia de mandar buscar um galo de bronze e presentear a Igreja, colocando no cimo da torre, nova e bonita. É um costume europeu e rara é a igreja portuguesa, especialmente do interior, que não tenha o Galo, símbolo de vigilância e de fé, arauto da claridade, Gallo canente spesredit. . .
Havia uma lenda de que o capitão-mór falecera no dia da primeira missa na Igreja de Santo Antonio. Não é possível crer-se. A igreja estava entregue ao culto sagrado, vinte e oito anos antes de Caetano da Silva Sanches chegar a Natal.
No dia 14 de março de 1800 o Capitão-mór falecera de ataque apoplético, estrupor, como se dizia.
Sepultou-se na Matriz, vestindo o hábito de Santo que era o orago da Igreja onde doara o galo de bronze.
Em 1864, nasceram uns arbustos na cúpula da Torre. O Galo ficou cercado de vegetação. Parecia viver e abrir o bico, para o apelo metálico aos seus distantes companheiros de capoeira.
O tempo foi rolando sem maiores sucessos. Na noite de 6 de março de 1897, às oito e trinta e cinco minutos, uma faísca, com trovão atordoador, caiu sobre a Torre de Santo Antonio. O galo ferido pelo choque, ficou dependurado, até a madrugada de 21 de junho, quando despencou e bateu na calçada do templo.
Depois, desapareceu, esquecido, nos desvãos escusos e escuros da igreja. Em janeiro de 1917, um “constante leitor” da A REPÚBLICA lembrou-lhe o exílio e sugeriu descobrimento. Monsenhor Alfredo Pegado, então Governador Geral do Bispado, explicou ter encontrado o Galo, danificado e feio, e o mandou consertar.
E, aos quatro ventos do Setentrião do Brasil, voltou o Galo de bronze, cinco anos depois, desta vez, imóvel e grave, assistindo, do alto da Torre, a ronda melancólica dos anos. . .

(*) Luis da Câmara Cascudo - República, 15 de outubro de 1939.

17.10.09

Natal - Geração 70 (*)


Existiram gerações que pareciam fervilhar de ideias, em favor de um futuro melhor. A geração 1970, ou simplesmente "geração 70", foi uma dessas, que marcaram época. Novos costumes foram sendo incorporados à cidade, que começava a perder sua função provinciana. Natal era, na boca de todos, uma Rio de Janeiro pequena, com todas as modas e trejeitos de cidade pequena, metida à grande, não tenhamos a menor dúvida. Então, como dizia Jair Rodrigues em Disparada: "prepare o seu coração para as coisas que eu vou contar..."
Foi o início dos hot-dog\'s, então vendidos na Kyxou, em primeira mão. Lembro-me das portas dos clubes, com as carrocinhas de Big-Dog, Ki-Dog, Xis-Dog. Cachorro-quente de carne que se prezava era o de "Pelé", que ficava, durante a semana, na Quinze, em Lagoa Seca, perto do Feijão Verde e do Bar do Tetéu, onde hoje existe o Midway.

Saboreávamos os refrigerantes: Coca-Cola, Crush, Grapette e Guaraná Rocha ou Champagne. No Galo Vermelho, os rapazes da época compravam frango assado, para tira-gosto das bebidas, como: Rum Montilla, cerveja, whisky, Drink Dreher, etc. Nos restaurantes, os abstêmios bebiam água mineral Santos Reis, em garrafinhas de vidro, com ou sem gás. Nas ruas podia-se tomar um sorvete Maguary ou Big Milk. O resto era din-din!

As rodinhas eram formadas, no fim da tarde, na Kyxou, para tomar sundae/ milk-shake ou um hot-dog. Lá se reuniam as moças e os rapazes da sociedade que assistiam, indiferentes, aos desfiles de moda e dos carrões equipados (Fuscão, Maverick, Opala, Karmann-ghia) e rebaixados, ao som de toca-fitas Rodstar ou Clarion de última geração. Natal sem tatuagens, drogas ou violência urbana, problemas tão comuns, hoje em dia. Aquele sim era tempo bom! Natal do Xique-xique... lá no Posto São Luiz da Av. Salgado Filho.
Já existiam os pegas que, na maioria das vezes, eram feitos no "barródromo", em Capim Macio. Não cito nomes para não fazer injustiças. Ainda sofria-se certa influência de James Dean, no filme Juventude Transviada. Hoje, felizmente, essa perigosa moda entre os jovens acabou. Depois dos "pegas" nos reuníamos no Teco-Teco, o bar de Geraldo em Capim Macio. Gasolina azul! Ingrediente ativo no tanque dos carangos dos boys da época estava à venda no Posto Pitombeira/ Tamarineira/ Miguel Barra, pelo que me lembro.
Ouvia-se bossa nova com a mesma frequência do rock. As radiolas Hi-Fi, Telefunker e Phillips tocavam freneticamente LP\'s e compactos de Roberto Carlos, Jerry Adriani, Ronnie Von, Wanderley Cardoso, Wanderléa, Martinha, Celi Campelo, Nelson Gonçalves, Beatles, The Fevers, Renato e seus Blue Caps, Credence e Santana. Também escutávamos no rádio, às 18 h, Jerônimo, o Herói do Sertão, o eterno noivo de Aninha, que, ajudado pelo fiel moleque Saci, fazia qualquer valente tremer.
Nos sábados a tarde, quem ficava em casa assistia os programas de auditório do Chacrinha. Quem quer bacalhau? À noite, as meninas assistiam na televisão a novela "O Bem Amado" de Dias Gomes, na Rede Globo.
No dia 29 de outubro de 1970 era inaugurada a "Casa de Hóspedes de Ponta Negra", com apenas 14 apartamentos. Um mês depois foi inaugurado o Balneário do Sesc, Ponta Negra, que logo se tornou o local preferido para o banho de mar de vários grupos de rapazes e moças.
A partir dos anos 70 começou a expansão urbana de Ponta Negra, com a construção dos primeiros conjuntos residenciais. Os compositores eram responsáveis pelas partituras das músicas que os maestros conduziam e os músicos executavam. A geração 70 reunira tudo isso harmonicamente, num só lugar: no Festival de Woodstock (1969).
A profusão de conjuntos de rock em Natal era crescente, lembro-me do The Jetsons, Impacto Cinco, Os Terríveis e Apaches.
Estava aumentando o número de hippies, darks e punks, que, antes dispersos, passam a agrupar-se na Praça Padre João Maria ou na Praia do Meio, em frente ao Salva-Vidas da Praia dos Artistas.
Liam-se muitos gibis: Bolinha, Luluzinha, Capitão Marvel, Tarzan, Jim das Selvas, Pato Donald, Batman, Zorro e outros. As revistas mais lidas eram: O Cruzeiro, Manchete, A Cigarra.
Alguns autores que se destacavam: Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade. Na Livraria Universitária, da Av. Rio Branco - Centro, batia ponto a fina flor dos escritores potiguares, recebidos cordialmente pelo Sr. Walter Pereira.
No Rio, o colunista Ibrahim Sued; em Natal, Jota Epifânio e Adalberto Rodrigues apresentavam, em suas colunas, o jet set da "capital espacial" do Brasil.
Assistíamos na TV programas como: A Praça da Alegria, J. Silvestre, Família Trapo, etc.

Nos cinemas Rex, São Luiz e São Pedro, domingo pela manhã, era onde se assistia os seriados de Zorro, Rin-tin-tim, Roy-Rogers e degustava-se o irmão mais velho do Baton: o Leite e Mel, ao lado dos torrones, das balas gasosas e dos Drops Dulcora, de cevada, anis e coca, sem esquecer dos Toffees Déa, muito populares na época. Tivemos o privilégio de assistir bons filmes em Tecnicolor, como: Mobby Dick, Os que Sabem Morrer, Love Story e outros, no Rio Grande, Rex ou Nordeste, pois não mais existia o cine Poty em Petrópolis, nem o Polytheama na Ribeira.
Nos domingos à noite, a partir das 19:30h, íamos para o ABC, animado ao som do Impacto Cinco. Os garçons eram Perneta e Bem-Te-Vi, entre outros, e as bebidas pedidas eram cuba libre e hi-fi, mais consumidas do que as cervejas, estas em casco escuro ou claro. A cerveja em casco escuro já era mais apreciada do que a de casco claro.

Alguns preferiam ir ao Hippie Drive-in, na estrada de Ponta Negra, com luz negra e outros babados. Outra pedida também era uma esticadinha à Tenda do Cigano, Peixada Potengi ou, quando sem dinheiro, a opção era o cachorro-quente do Souza, no beco da Casa Rio.
As noites eram tocadas pelo Hippie Drive-in, Piri-Piri e Girassol. Existia o bar Barreirinha, outro ponto de encontro da mocidade. O acesso a Ponta Negra era pela antiga estrada, construída pelos americanos, até a altura do velho Posto Planalto. Daí, prosseguia-se pelo calçamento, chegando à orla marítima e seguindo adiante, até Pirangi, onde tínhamos o caranguejo do Pinoca.

Em Petrópolis, frequentava-se a Confeitaria Atheneu, o Gramil e o Kazarão.
Na Praia do Meio, O Jangadeiro, depois da boate do Hotel Reis Magos, para uma noite de serestas com o inesquecível Expedito. Também éramos clientes assíduos do Aeroclube e do América, onde se comiam as refeições mais sofisticadas, com a mesma naturalidade que se tomava um caldo de feijão na Tenda do Cigano.

No Tirol, o Stop era frequentado por uma porção de jovens, vindos do bairro e adjacências, que nos dias em que na AABB ou no América tinha baile (não show) fazia a alegria dos garçons. Quem atendia eram os garçons: Bem-Te-Vi e Perneta. Depois da festa ou arrastão (época de São João), lanchava-se lá pelas 3 da madrugada no Dia-e-Noite, lanchonete com bastante movimento, localizada no Centro. Posteriormente, veio o Passaporte Lanches, de Peninha, na Praça Pedro Velho.
Dos carnavais inesquecíveis lembramos os do América, Aero, AABB, ABC, Iate Clube e Assen, valendo a pena lembrar que os carnavais do América eram sempre tocados pela orquestra de Waldemar Ernesto.
Em Natal, tudo era charmoso, na década de 70, quase sem violência urbana.

(*) Elísio Augusto de M. e Silva, empresário, escritor - Transcrito de O Jornal de Hoje