6.2.13

Colégio Atheneu Norte-Riograndense

O Colégio Atheneu Norte-Riograndense foi fundado em Natal antes mesmo do Colégio que era modelo para o Império: o Colégio Pedro II, que foi fundado em 2 de dezembro de 1837, no Rio de Janeiro, “na Corte”.
A fundação do Atheneu aconteceu em três de fevereiro de 1834, nesse dia o Padre Antônio Xavier Garcia de Almeida, vice-diretor do Ateneu, abriu o livro de matrículas das aulas no referido Colégio.
Período do Império, o Ateneu Norte-riograndense tornou-se necessário para suprir as necessidades de quadros para a estrutura social vigente, afinal a estrutura econômica estava assentada em formas de trabalho, como a escravatura, e a educação tradicional privilegiava a elite. Assim, era necessário instituir, na sociedade, uma via eficaz para formar uma classe imbuída da moral dominante, destinada a ocupar as funções públicas e liberais que começavam a se expandir.
Na cidade do Natal, em 1834, havia cinco aulas de Humanidades, intituladas Aulas maiores, eram elas: Filosofia, Retórica, Geometria, Francês e Latim. O então Presidente da Província, Basílio Quaresma Torreão (1787-1868) solicitou ao Conselho Geral da Província14, a reunião dessas cinco Aulas Maiores num Colégio.
Entendemos que é a Basílio Quaresma Torreão que devemos a existência do Atheneu, pois foi ele que teve a iniciativa de reunir as cinco Aulas Maiores num Colégio, ele amava a História, era letrado e amigo de clássicos e a ele se deve a escolha do nome.
O Atheneu funcionou no antigo Quartel Militar (Av. Rio Branco) de 1834 até 1859, pois a chegada de um batalhão desalojou alunos e professores, forçando-os a estudarem em residências. Em 1º de março de 1859, o Atheneu foi instalado no edifício da rua Junqueira Ayres, atual Secretaria Municipal de Finanças e permaneceu lá até 1954.
O prédio do Atheneu era referência na cidade e, muitas vezes, utilizada para outros fins. A Escola Normal funcionou no Atheneu de 13 de maio de 1908 até 31 de dezembro de 1910. A Escola Normal foi criada pelo Governador Alberto Maranhão a fim de preparar gente capacitada fechando algumas escolas primárias, rotineiras, retrógradas e improdutivas que havia no Estado. Quarenta e quatro anos depois, a Escola Normal e o Atheneu voltam a utilizar o mesmo espaço.
O prédio atual, construído tem formato de “X”, foi inaugurado em 11 de março de 1954. No prédio novo, encontravam-se um ginásio para prática de esportes, sessões de cinema e auditório para festas, 16 salões de aulas comuns e 8 salões para aulas especializadas.
Durante muitas gerações o Atheneu foi considerado o melhor colégio do Estado, um pólo para transmissão cultural e ao mesmo tempo, um meio de traçar limites entre o secundário e o superior. Foi fundamental na vida da cidade e das pessoas que viveram desde a década de 1830 sempre motivando apreensões discursivas e suas práticas culturais como estratégias de pensar.
O Atheneu sempre atendeu, mesmo que de forma não intencional, a alguns pressupostos que norteiam a pedagogia do contemporâneo. Antes não havia reuniões de pais, mas o ensino correspondia à proposta básica das famílias para a educação dos seus filhos. Assim procuramos ressaltar a importância do Atheneu na vida de nossa cidade..

Extraído da tese de Liliane dos Santos Gutierre

27.1.11

A vida boêmia de Natal - 1939/1940

Por volta de 1939, início da II Guerra Mundial, os cabarés mais famosos de Natal situavam-se na Ribeira. Bastante freqüentados, eram muito populares, fazendo parte integrante da vida boêmia da cidade, que se iniciava depois das 9 horas da noite, quando as famílias já tinham se recolhido.
Na vida noturna provinciana encontravam-se as prostitutas, os cáftens e os gigolôs, que também serviam de inspiração aos poetas e escritores.
Naquela época, a cerveja era vendida ao preço de mil e quinhentos réis, sendo uma das bebidas mais consumidas pelos pândegos da boemia. As mulheres da zona pediam martini aos acompanhantes, que era servido ao preço de cinco mil réis a dose. A popularização do uísque ocorreu somente depois, com a chegada dos americanos a Natal.
Nos cabarés, às vezes, aconteciam pelas madrugadas brigas e pancadarias, entre os freqüentadores, sendo necessária a presença da polícia, para acalmar os mais exaltados.
Normalmente, dentro das pensões alegres existia uma figura andrógina, alegre, com requebros e trejeitos femininos, cabelos oxigenados, muito conhecida pelos freqüentadores. Por aquela época, uma era conhecida por "Afago verde".
Nesse tempo, as parteiras eram responsáveis por grande parte das vidas que surgiam. O parto era feito em casa, com o resguardo de vários dias e muita canja de galinha. Em partos mais difíceis, surgia o médico, com a sua inseparável valise e o estetoscópio.
As pensões alegres eram freqüentadas por pessoas de diferentes níveis sociais. À noite, já com o dólar correndo solto, surgiram os vendedores clandestinos, que vendiam perfumes, isqueiros, sabonetes, whiskys, cigarros, etc.
As músicas mais tocadas nas radiolas de ficha eram os tangos e maxixes, que, aos poucos, foram sendo substituídos por swings, blues e fox trotes, já na década de 1940.
Naqueles anos, apareceu na zona uma novata: morena, de olhos e cabelos negros, que circulou por várias casas noturnas e despertou a paixão de muitos freqüentadores. Os seus pretendentes eram selecionados pela disposição de abrir a carteira. Contam que ela terminou os seus dias abandonada e esquecida no Beco da Quarentena, tomando injeções diárias de "914", aplicadas por um enfermeiro da Saúde Pública aos portadores de sífilis. A profilaxia era uma lavagem à base de permanganato.
As notícias da guerra, via BBC Londrina, transmitidas pela Agência Pernambucana, antes da inauguração da REN - Rádio Educadora de Natal, eram geralmente acompanhadas pela "Canção do Expedicionário", que traduzia a saudade da pátria e a esperança de vitória dos Pracinhas Brasileiros, na Itália. Por ali se tinha notícias dos últimos acontecimentos da II Guerra Mundial na Europa.
No Cine Polytheama, na Praça Augusto Severo, Ingrid Bergman, Diana Durbin, Judy Erland e outros artistas encantavam os telespectadores.
O movimento do Porto, ali perto, era intenso, guarnecido pelos fuzileiros navais que, sob o tema "Adsumus", que significa "aqui estamos", eram admirados e respeitados pela população, em virtude do exemplo de dedicação e profissionalismo em defesa da pátria.
As notícias da noite corriam velozes, de boca em boca, e terminavam no Grande Ponto, ou no Bar Cova da Onça, na Av. Tavares de Lira, onde o garçom "Cara larga" atendia aos clientes, na parte de trás do Estabelecimento. Muitas dessas histórias já modificadas pelo povo.
Assim era a vida noturna da Natal boêmia do início dos anos 40.

Elísio Augusto de Medeiros e Silva http://almadobeco2.blogspot.com

15.12.10

Anos Dourados III



Nos anos setenta a Praia do Meio possuía dois espaços culturais: a Galeria do Povo e o Artelier. Também abrigando o primeiro restaurante macrobiótico de Natal, onde o pessoal ia se liberar das toxinas consequentes dos excessos noturnos com os pratos do proprietário Véscio Lisboa. Na segunda metade dos anos setenta, surgiu o Festival do Forte, idealizado pelo músico Luiz Lima, o artista plástico Sandoval Fagundes e o escritor Carlos Gurgel.
"O festival acontecia na terceira lua de cada mês e era um momento de muita música, muita poesia e muita loucura, depois disso, nunca houve nada em Natal tão contundente para nossa cultura como o Festival do Forte", recorda hoje Gurgel, com os olhos cheios de nostalgia. Yuno Silva, estudante de Comunicação, era criança nesse período, mas lembra de quando era levado pelos pais junto com o irmão para curtir o festival, "Os moleques ficavam pulando naquela casa de armar no meio do Forte. Era incrível, sendo criança, ver de perto artistas como Raul Seixas, Gil, Jorge Mautner, Jards Macalé...são tempos que não voltam mais."
Durante os anos setenta e oitenta, a Praia dos Artistas era um lugar concorrido durante toda semana. A jornalista Cione Cruz diz que " a partir das quintas feiras, íamos à praia de dia para tomar sol e à noite exibíamos nosso bronzeado nos bares e boates de lá". Havia ainda uma turma que fazia da praia dos artistas a sua casa, gente que chegava de manhã, depois da aula, de mochila nas costas, trocava o calção de banho e ia jogar frescobol nas areias ou surfar naquelas ondas. Um bom exemplo desse tipo de frequentador era o jornalista Flávio Rezende, assíduo jogador de frescobol, "chegava por volta da 11, 12 horas, depois das aulas do curso de Comunicação da UFRN e ficava até às 18 horas". Nos anos oitenta se intensificou também a prática do surf, daí vieram o campeonatos ao bar caravela, transmitidos nos alto falantes. "Sinto saudade do rock muito alto que tocava durante os torneios, dos amigos sem hora pra ir embora, as paqueras na beira da praia e os beijos na boca apaixonadíssimos, que até deixava a gente meio fraco..."
Com a ida dessas décadas, foram-se também a grande maioria dos frequentadores do lugar. A maturidade e as ocupações iam distanciando pouco a pouco os antigos. E a falta de segurança inibia a formação de uma nova geração de praieiros. A reurbanização e construção dos quiosques de cimento, ao invés das barracas, não foram suficiente para assegurar a reestruturação da área.
Natal acontecia agora bem longe dali. As diversões eram outras, as praias também. A burguesia ia de carro até os distantes litorais norte e sul, procurando aquilo que já não se via mais no urbano: segurança, tranquilidade. O desfile de beleza nas praias urbanas, as paqueras no calçadão, davam lugar a um outro tipo de oferta. O "quem me quer" adquiria outra feição com a explosão do turismo e a procura dos estrangeiros pelas mulheres locais.

23.11.10

De Riffault ao Refoles - Os Franceses *

A utópica França Antártica de Villegagnon (1555) não tinha dado certo. Por essa época, todo o litoral brasileiro que não tinha o domínio português foi sistematicamente batido pelos franceses, chamados de “intrusos” pelos lusitanos. Não fundavam povoados, vilas, cidades. Aventureiros, marinheiros corsários da Normandia – em nome do Rei de França - interessava-lhes, apenas, o tráfico da ibirapitanga e dos búzios. Nada impunham aos silvícolas, levando vida mansa, fazendo amizade com os tuxauas, beiço furado, bebendo cauim, banzando nas tipóias, cabeça feita de chá de jurema na companhia dos pajés. Não era raro, nessa quadra, entre os potiguaras, aparecerem cunhãs e corumins de cabelos louros e olhos azuis...
Jacques Riffault aqui deixou fama e temor. O Refoles – antes Nau do Refoles e sítio onde hoje está a Base Naval de Natal, numa curva do “Potengi amado” – lhe recorda o nome e as estripulias entre nós. Destemido, em 1597, partindo desse ancoradouro, comandando uma dúzia ou mais de embarcações piratas, atacou a Fortaleza de Cabedelo, na vizinha Paraíba. Foi um dos idealizadores, ainda nos idos de 1594, da chamada França Equinocial, na “ilha do Maranhão”, que conhecia bem. Chegou, inclusive, a propor a empreitada ao Rei Henrique IV, em parceria com um dos seus tenentes, Charles des Vaux. Desapareceu depois, no tempo e no vento, sem adivinhar que séculos depois, no seu porto da curva do rio, descansariam das formidáveis travessias as grandes asas das “libélulas de aço” de Mermoz.
* Por Laélio Ferreira

20.10.10

O HQ 129 X e a musica fractal dos sapos.

Por José Bezerra Marinho

O primeiro e mais constante, vinha do quarto ao lado ao que eu nasci.

O do receptor HQ129 X do meu pai, radioamador.

Cresci com aquela música, ruídos, encantamento ao saber que dali, daquele seu quartinho ele falava e ouvia o mundo. Minha mãe me lembrava sempre que, no dia que nasci meu choro – que meu pai chamava QRM, código de interferência no jargão de rádio - foi mandado por ele para os seus colegas mundo afora. Quando soube disso fiquei todo besta. Só depois fiquei insuportável.

A chuva que, desavisadamente, desabava nas noites da Afonso Pena, trazia com ela a musica fractal dos sapos, redivivos, no leito de uma avenida que virava lagoa durante a noite entre Açu e Mossoró, não os rios ou municípios, mas as ruas do Tirol.

Como era possível? Na cabeça do menino de minha saudade não havia resposta. Até ontem não havia chuva, não havia lagoa, não havia sapos. De onde eles vinham? Como sabiam que a lagoa se formara?

Seco, alto, enorme aos meus olhos, com vastas mãos, meu pai explicava: “estavam aí”, apontando do terraço da casa para a rua. Estado latente, quietos, esturricados, ainda mais feios, mas vivos!

Independente de chuva e sapos, todos os dias a manhã se anunciava ao som de madeira sendo serrada.

Em frente, exatamente em frente à minha casa, a serraria de Plínio Saraiva. A madeira gemia ao encontrar a serra. Um gemido mais baixo que ia num crescendo até a tora ser vencida. A madeira serrada era posta em pequenas caixas que eram entregues nas casas. É... esconder pra que? Naquele tempo, a maioria dos fogões domésticos era a lenha.

Havia algo de irreal, custei mesmo a acreditar, quando pela primeira vez ouvi Aluízio Menezes narrando um ABC e América, gritar gooooooll, sem que antes tivesse ouvido a explosão da frasqueira da geral do “Estádio – e haja boa vontade – Juvenal Lamartine”.

Sons das tardes de Domingo, ABC e América, noites de quarta feira, Riachuelo e Atlético, sempre havia um coro, ohhhhh, nas bolas perdidas, e explosão apoteótica num gol de Cezimar, ou Saquinho, ou Jorginho, ou Alberí.

Alguém aí já (ou) viu avião “pedindo carro”? Esse era outro som mágico. O avião de João Pinheiro “pedindo carro”.

Chegando a Natal, o aviador e os passageiros do seu táxi aéreo, pousariam em Capim Macio e precisavam de um “carro de praça”.

Meu vizinho, João sobrevoava sua casa e, a baixa altitude, balançava as asas e rraumrraumava o motor, era o sinal. D. Cleide ia pra minha casa e ligava para o 2100 ou 2300, e pedia um “carro em capim macio para João Pinheiro”.

O fim da tarde chegava com Cambraia anunciando o “Jornal de Natal” de Djalma Maranhão.

Cambraia - perfeito biótipo e porte de um príncipe banto - soltava uma cantiga que, muitos anos depois, penso ter reconhecido em Catoca, nas Lundas, no coração de Angola.

Mas aí eu já tinha crescido, os sapos haviam sido expulsos pelo asfalto e havia visto quando meu pai, poucos dias antes de sua morte, desligou para sempre seu HQ 129 X.