15.7.09

Natal e a II Guerra (I)


Natal e a II Guerra Mundial - Parte I (Minervino Wanderley*)

Com a chegada da Segunda Grande Guerra, houve a implantação da Base Aérea de Parnamirim, que terminou sendo responsável pela consolidação do bairro do Tirol, além de contribuir para o surgimento dos bairros de Lagoa Seca e Lagoa Nova.
Na visão de Ethiene Reis, morador do Tirol desde 1935, "antes da Grande Guerra, Natal começava pela Ribeira e terminava por aqui, mais ou menos onde é 16º Regimento de Infantaria. Para lá, onde hoje é Candelária Ponta Negra, não tinha nada, tudo deserto", afirma.
Pery Lamartine destaca a importância da Segunda Grande Guerra para Natal, no que se refere à sua geografia:
"Natal tinha cerca de 30 a 40 mil habitantes antes da guerra. A cidade terminava perto do Aero Clube. Para se ter uma idéia, os bondes que faziam a linha para o Tirol, nem chegavam a ir lá. Paravam ali onde hoje é a Associação Atlética Banco do Brasil-AABB, exceto quando tinha baile no Aero, que era uma vez por mês. A última construção que tinha era o prédio do Aero Clube".
Diante dos depoimentos colhidos e das pesquisas feitas, vê-se claramente que a cidade do Natal do pré-guerra não passava de uma grande vila, com carências peculiares a lugares desse porte. Sua infra-estrutura era débil e sua economia não apontava para perspectivas otimistas.
A cidade pacata e pequena, que "cresce sem querer e sem saber porque", que, segundo contam, era uma frase atribuída ao seu filho mais ilustre, o folclorista Luís da Câmara Cascudo, continuaria assim até
O início da Segunda Guerra Mundial. Foi então que sua geografia pesou como nunca no seu crescimento: os americanos, mesmo antes de deflagrada a guerra, perceberam que Natal era a cidade das Américas mais próxima da África. Ou seja, um lugar de grande valor estratégico na defesa do Atlântico Sul.
Sua proximidade com os continentes europeu e africano fez com que, desde a sua fundação, Natal tenha sido sempre um lugar "cortejado" por povos de diferentes origens, que viam a cidade como um perfeito trampolim entre os continentes.
A chegada da Segunda Guerra Mundial mudou radicalmente o perfil da cidade de Natal. A instalação da base militar em Parnamirim provocou impactos econômicos e sociais na cidade, deixando evidente o seu despreparo para absorver essa nova situação que se desenhava.
A chegada de grande contingente militar americano, que em alguns momentos chegou a cerca de 10 mil homens, demandou um aumento na quantidade de serviços nas áreas de construção, infra-estrutura urbana (transportes, hotéis e pensões) e abastecimento. Tal situação atrai, de imediato, a população em razão da oferta de emprego civil e militar, além das oportunidades surgidas pela grande circulação de dinheiro que ocorria na cidade.
Graças ao grande poder aquisitivo do povo americano, a Segunda Guerra trouxe benefícios à população, que passou a conviver com uma moeda - o dólar -de grande lastro, respeitada em todo o mundo e que viria e ser, depois da Guerra, adotada como referência na economia universal. Sobre esses momentos, Guiomar Araújo, esposa do comerciante Alcides Araújo, então proprietário da Casa Rio, conta: "O período da Guerra foi muito bom para o comércio. Além de os americanos gostarem muito de comprar nossas mercadorias, o dinheiro passava de mão em mão. O americano gastava num bar, o dono bar comprava mercadoria para abastecer no mercado, o dono do mercado comprava ao agricultor ou criador e por aí, ia". Via-se, então, que a circulação monetária trazia bens significativos à cidade e seu povo.
Se houve benefícios à sociedade como um todo, o impacto financeiro provocado pela presença americana entre nós também trouxe ganhos individuais. Comerciantes, industriais, proprietários de imóveis etc. Sobre isso, Smith Júnior relata: "Muitos natalenses ganharam dinheiro dos americanos durante a guerra. Um dos primeiros foi a Amélia Machado, que era proprietária da maior parte das terras nas quais a Base de Parnamirim foi construída. Um outro que obteve lucros foi Theodorico Bezerra, proprietário do Grande Hotel, único hotel de Natal naquela época, hospedava os oficiais americanos, recebendo o pagamento em dólares".
Na obra desse historiador, encontramos a história do começo de um dos mais bem sucedidos empresários potiguares. Vejamos: "Um judeu, Moisés Feldman, abriu uma loja na Ribeira, perto do cais do porto, onde vendia relógios aos americanos. Seu negócio tornou-se tão lucrativo que contratou um empregado, Nevaldo Rocha, que mais tarde tornou-se um rico empresário dono de uma cadeia de lojas, as Confecções Guararapes". Com efeito, Nevaldo tornou-se um dos maiores empresários do ramo de vestuário do país, criando uma grande cadeia de fábricas e lojas no Brasil e no exterior, as Lojas Riachuelo.
Por outro lado, a inviabilidade de importar produtos como hortaliças, legumes e aves, levou o comando militar norte-americano a articular, em Natal, a instalação de pequenas unidades de produção agrícola.
Até aquele momento, a agricultura em Natal que ainda era dominada pela monocultura da cana-de-açúcar e pela cultura de subsistência, passou a ter uma outra alternativa econômica fundamentada nos pequenos produtores de hortifrutigranjeiros, contrastando com os latifúndios nas áreas rurais do agreste potiguar.
Como se antevia, os problemas básicos de uma comunidade que cresceu abruptamente e sem planejamento, começaram a surgir, trazendo consigo uma espiral inflacionária. Clementino nos diz que "as restrições ao livre trânsito das mercadorias terminam por provocar uma crise de abastecimento. Os preços dos gêneros de primeira necessidade, como carne, ovos, manteiga, banha, farinha de trigo, feijão, etc, aumentam sensivelmente, tornando-se impossível a manutenção de pessoas de limitados recursos".
(*Jornalista)

11.7.09

"La Belle de la Nuit"

Maria de Oliveira Barros - A Bela da Noite
Maria com um lança- perfume Rodouro

Uma réplica do avião B-25 com o nome de Maria Boa

Maria fantasiada para o carnaval

7.7.09

Ainda sobre Zé Areias

Rampa em 1942
BALÕES VERMELHOS

Eu estava sentado na minha cadeira, em frente ao birô de madeira, do tempo antigo, mais que isso, quando Zé Areias, que estava sentado numa cadeira do escritório, lendo uma revista de um número atrasado, disse que, na China antes daquele tempo, era comum os comerciantes pendurarem balões vermelhos com velas no seu interior, nas salas das casas de negócio para vender a quem quisesse comprar. Com certeza, Zé Areias estava lendo tal artigo na revista, pensei eu. Ele falou aquilo para quem quisesse ouvir. Zé Areias, cujo nome era José Antonio Areias Filho, era um homem dos seus 50 anos ou mais. Quando os soldados norte-americanos estiveram aquí, no tempo da IIª Guerra, ele esteve por todo o tempo lá pelo Campo de Parnamirim, no Rio Grande do Norte, fazendo a barba, cortando o cabelo dos gringos e mesmo vendendo urubu como se fosse peru. Ele era um homem vivedor como ninguém sabia. Depois da Guerra, veio o perído de recessão para Zé Areias. Quando não tinha nada o que fazer, ele vendia rifas de qualquer coisa: bode, burro ou carneiro. Dava gosto de ouvir o que o homem contava em suas façanhas dos dias e das noites e, de quando em vez, com seu corpo cheio de gorduras, peitos caídos até a barriga enorme por sinal, ele parava a conversa com um tradicional "plutzz" que costumava fazer entre os lábios carnudos. Com relação aos balões vermelhos, dizia Zé Areias, era uma tradição do povo a colorir suas moradias, principalmente no final de ano, quando eram recebidos os parentes para tomar um chá em meio da conversa, não raro, para acertar um casamento entre seus familiares. Com relação ao chá, contava o barbeiro gozador, que foram os chineses os seus inventores. Certa vez, um cidadão da aldeia fazia uma poção de água quente com folhas de ramos de alguma coisa que ele chamava de "agua quente". Estava o homem a mexer a água quente quando não sabe bem porque, a poção derramou sobre seus braços, busto e corpo a baixo. Indignado com o incidente mal acontecido o chinês gritou: "CHÁ", como forma de desespero e malcriação. Não se sabe ao certo, a verdade é que daquele dia em diante quem procurasse a água quente com gravetos finos de árvores saberia dizer que estaria procurando tomar um "chá" para beber, pois foi assim que se passou a chamar a tradicional de água com gravetos. Tal fato, Zé Areias contava enquanto o meu tio Zeca, sorria, baixinho, gordo como era, com as alfinetadas do barbeiro natalense. Era frequente a visita de Zé Areias ao escritorio de José Leandro, o tio Zeca, pois havia uma enorme afinidade entre os dois homens. Ze Leandro era mais moço sete anos que Zé Areias. Mas, nas alfinetadas da vida, apesar da diferença de dinheiro, não havia nada a temer. Zé Areias, por certo tempo, quando os norte-americanos estiveram por aqui, ele era um homem cheio de dólares e costumava ir aos bares da Ribeira onde gastava tudo o que levava em uma noite. Se alguém perguntasse a ele o que havia feito para gastar tanto dinheiro assim, ele respondia: "Dólares em alta!!!". E assim continuava a beber à noite toda. Com relação aos balões vermelhos, ele dizia sempre: "Um dia eu ainda vou lá!!!". Logo a seguir. mudava de assunto, pois a China era longe demais, apesar das chinesas serem mulheres cheias de candor. E por uma mulher de qualquer tipo ou preço, seja lá como fosse, que fosse gorda, rechonchuda, ele estava pronto para ir até à China. (Alderico Leandro Blog Asa Morena)

4.7.09

ABC, América e Alecrim

ABC 1970 - Campeão


América 1967 - Campeão




Alecrim 1968 - Campeão


(Fotos repassadas por Carlos Linhares)

1.7.09

Esmeraldo Siqueira


Memórias de um ex-aluno
(Cláudio Galvão*)
Era o ano de 1954 e o Atheneu instalava-se na Avenida Campos Sales, ficando o centenário e histórico prédio da Avenida Junqueira Aires entregue a mãos impiedosas para sofrer logo após uma criminosa e desnecessária demolição.
Prédio novo, carteiras novas, professores antigos. Ainda alcancei nomes emblemáticos do ensino, como Antônio Pinto de Medeiros, Floriano Cavalcanti de Albuquerque, Raul de França, Albimar Borges, Nevinha (de Geografia), Sebastião Monte, Protásio Melo e Esmeraldo Siqueira.
Minha turma era muito bagunceira nos intervalos, mas até "bem comportada" em aula, embora nela estivesse Tota Zerôncio, o tipo mais gaiato que conheci até hoje. As aulas em geral transcorriam sem alterações, até mesmo as de francês, que abordavam a literatura daquele país, algo tão desconhecido de nós pobres iletrados estudantes.
As aulas do Professor Esmeraldo Siqueira eram ouvidas com o maior respeito e atenção. Naquele tempo aulas eram para ser ouvidas apenas, não havia isto de pesquisa, trabalho de grupo e outras modernidades.
Esmeraldo falava de um tema que podia ser o mais chato do mundo: a literatura francesa. Mas ele conseguia tornar o assunto agradável ao abordar detalhes curiosos e muitas vezes escabrosos da vida dos autores e gente daquele tempo. Fatos e mais fatos, nomes de poetas e escritores ainda estão na minha memória, graças ao seu cuidado e recomendações para a correta pronúncia de cada nome.
Provas, correções, 2ª época, reprovações? Nunca houve. Para que? - devia perguntar, se o que fazia era plantar sementes. Sem isso não teria eu ido à biblioteca que ficava no primeiro
andar, para ler Georges Sand.
Ingressando no magistério, volto ao Atheneu como professor e, em 1962, fui vice-diretor da turma matutino: era "chefe" dos professores, entre eles, de Esmeraldo Siqueira. Todos o consideravam irritável e rebelde. Comigo nunca o foi pois sempre o considerei e respeitei.
No mesmo ano de 1962 fui admitido como professor da Faculdade de Filosofia que, antes de passar para a UFRN, funcionava na Praça Pedro Velho, atual Colégio Anísio Teixeira. Eis-me novamente "colega" de Esmeraldo Siqueira.
Ali, nos momento de folga, aproximava-me do mestre na expectativa de aprender um pouco mais. Foram momentos de muito proveito, quando rememorava fatos e personagens do seu passado. Nunca o vi irritado, mas sempre de bom humor, direcionando sua ironia para seus prováveis adversários.
Guardo na memória expressões, apelidos, comparações e quadrinhas feitas "na hora", quando "premiava" alguém que passava e despertava atenção. Lembro-me que, uma vez, comentou comigo que a nossa diretora o havia desatendido em uma reivindicação de que se julgava merecedor.
Então, desferiu o míssil destruidor: "Ela não sabe com quem mexeu. Vai sair na próxima FAUNA POTIGUAR!" Sorte dela que os poemas caricatos FAUNA POTIGUAR não foram continuados.
A última vez que vi o Professor Esmeraldo Siqueira foi quando de uma visita em sua residência, à Rua Jundiai. Já estava doente e - não nos esqueçamos de que era médico - sabia o que tinha. Foi então que, apontando para as estantes que contornavam sua sala de visitas, disse: "Estou relendo todos os meus livros. Estou me despedindo de minha biblioteca."
Esmeraldo viria a falecer tempos depois - e só aos poucos aquelas frases que guardei foram se abrindo para mim, desvendando o seu profundo conteúdo.
Nunca ouvi falar que alguém se despedisse de uma biblioteca. Nunca senti em ninguém tão grande testemunho de amor pelos livros e, naturalmente, pela cultura que eles continham. Cultura que Esmeraldo Siqueira viveu, amou e divulgou. Cultura que era parte essencial de sua vida, seu mais constante testemunho e, havendo sido sempre professor, seu legado maior, sua mais elevada missão.
(*Historiador e Pesquisador)