15.12.10

Anos Dourados III



Nos anos setenta a Praia do Meio possuía dois espaços culturais: a Galeria do Povo e o Artelier. Também abrigando o primeiro restaurante macrobiótico de Natal, onde o pessoal ia se liberar das toxinas consequentes dos excessos noturnos com os pratos do proprietário Véscio Lisboa. Na segunda metade dos anos setenta, surgiu o Festival do Forte, idealizado pelo músico Luiz Lima, o artista plástico Sandoval Fagundes e o escritor Carlos Gurgel.
"O festival acontecia na terceira lua de cada mês e era um momento de muita música, muita poesia e muita loucura, depois disso, nunca houve nada em Natal tão contundente para nossa cultura como o Festival do Forte", recorda hoje Gurgel, com os olhos cheios de nostalgia. Yuno Silva, estudante de Comunicação, era criança nesse período, mas lembra de quando era levado pelos pais junto com o irmão para curtir o festival, "Os moleques ficavam pulando naquela casa de armar no meio do Forte. Era incrível, sendo criança, ver de perto artistas como Raul Seixas, Gil, Jorge Mautner, Jards Macalé...são tempos que não voltam mais."
Durante os anos setenta e oitenta, a Praia dos Artistas era um lugar concorrido durante toda semana. A jornalista Cione Cruz diz que " a partir das quintas feiras, íamos à praia de dia para tomar sol e à noite exibíamos nosso bronzeado nos bares e boates de lá". Havia ainda uma turma que fazia da praia dos artistas a sua casa, gente que chegava de manhã, depois da aula, de mochila nas costas, trocava o calção de banho e ia jogar frescobol nas areias ou surfar naquelas ondas. Um bom exemplo desse tipo de frequentador era o jornalista Flávio Rezende, assíduo jogador de frescobol, "chegava por volta da 11, 12 horas, depois das aulas do curso de Comunicação da UFRN e ficava até às 18 horas". Nos anos oitenta se intensificou também a prática do surf, daí vieram o campeonatos ao bar caravela, transmitidos nos alto falantes. "Sinto saudade do rock muito alto que tocava durante os torneios, dos amigos sem hora pra ir embora, as paqueras na beira da praia e os beijos na boca apaixonadíssimos, que até deixava a gente meio fraco..."
Com a ida dessas décadas, foram-se também a grande maioria dos frequentadores do lugar. A maturidade e as ocupações iam distanciando pouco a pouco os antigos. E a falta de segurança inibia a formação de uma nova geração de praieiros. A reurbanização e construção dos quiosques de cimento, ao invés das barracas, não foram suficiente para assegurar a reestruturação da área.
Natal acontecia agora bem longe dali. As diversões eram outras, as praias também. A burguesia ia de carro até os distantes litorais norte e sul, procurando aquilo que já não se via mais no urbano: segurança, tranquilidade. O desfile de beleza nas praias urbanas, as paqueras no calçadão, davam lugar a um outro tipo de oferta. O "quem me quer" adquiria outra feição com a explosão do turismo e a procura dos estrangeiros pelas mulheres locais.

23.11.10

De Riffault ao Refoles - Os Franceses *

A utópica França Antártica de Villegagnon (1555) não tinha dado certo. Por essa época, todo o litoral brasileiro que não tinha o domínio português foi sistematicamente batido pelos franceses, chamados de “intrusos” pelos lusitanos. Não fundavam povoados, vilas, cidades. Aventureiros, marinheiros corsários da Normandia – em nome do Rei de França - interessava-lhes, apenas, o tráfico da ibirapitanga e dos búzios. Nada impunham aos silvícolas, levando vida mansa, fazendo amizade com os tuxauas, beiço furado, bebendo cauim, banzando nas tipóias, cabeça feita de chá de jurema na companhia dos pajés. Não era raro, nessa quadra, entre os potiguaras, aparecerem cunhãs e corumins de cabelos louros e olhos azuis...
Jacques Riffault aqui deixou fama e temor. O Refoles – antes Nau do Refoles e sítio onde hoje está a Base Naval de Natal, numa curva do “Potengi amado” – lhe recorda o nome e as estripulias entre nós. Destemido, em 1597, partindo desse ancoradouro, comandando uma dúzia ou mais de embarcações piratas, atacou a Fortaleza de Cabedelo, na vizinha Paraíba. Foi um dos idealizadores, ainda nos idos de 1594, da chamada França Equinocial, na “ilha do Maranhão”, que conhecia bem. Chegou, inclusive, a propor a empreitada ao Rei Henrique IV, em parceria com um dos seus tenentes, Charles des Vaux. Desapareceu depois, no tempo e no vento, sem adivinhar que séculos depois, no seu porto da curva do rio, descansariam das formidáveis travessias as grandes asas das “libélulas de aço” de Mermoz.
* Por Laélio Ferreira

20.10.10

O HQ 129 X e a musica fractal dos sapos.

Por José Bezerra Marinho

O primeiro e mais constante, vinha do quarto ao lado ao que eu nasci.

O do receptor HQ129 X do meu pai, radioamador.

Cresci com aquela música, ruídos, encantamento ao saber que dali, daquele seu quartinho ele falava e ouvia o mundo. Minha mãe me lembrava sempre que, no dia que nasci meu choro – que meu pai chamava QRM, código de interferência no jargão de rádio - foi mandado por ele para os seus colegas mundo afora. Quando soube disso fiquei todo besta. Só depois fiquei insuportável.

A chuva que, desavisadamente, desabava nas noites da Afonso Pena, trazia com ela a musica fractal dos sapos, redivivos, no leito de uma avenida que virava lagoa durante a noite entre Açu e Mossoró, não os rios ou municípios, mas as ruas do Tirol.

Como era possível? Na cabeça do menino de minha saudade não havia resposta. Até ontem não havia chuva, não havia lagoa, não havia sapos. De onde eles vinham? Como sabiam que a lagoa se formara?

Seco, alto, enorme aos meus olhos, com vastas mãos, meu pai explicava: “estavam aí”, apontando do terraço da casa para a rua. Estado latente, quietos, esturricados, ainda mais feios, mas vivos!

Independente de chuva e sapos, todos os dias a manhã se anunciava ao som de madeira sendo serrada.

Em frente, exatamente em frente à minha casa, a serraria de Plínio Saraiva. A madeira gemia ao encontrar a serra. Um gemido mais baixo que ia num crescendo até a tora ser vencida. A madeira serrada era posta em pequenas caixas que eram entregues nas casas. É... esconder pra que? Naquele tempo, a maioria dos fogões domésticos era a lenha.

Havia algo de irreal, custei mesmo a acreditar, quando pela primeira vez ouvi Aluízio Menezes narrando um ABC e América, gritar gooooooll, sem que antes tivesse ouvido a explosão da frasqueira da geral do “Estádio – e haja boa vontade – Juvenal Lamartine”.

Sons das tardes de Domingo, ABC e América, noites de quarta feira, Riachuelo e Atlético, sempre havia um coro, ohhhhh, nas bolas perdidas, e explosão apoteótica num gol de Cezimar, ou Saquinho, ou Jorginho, ou Alberí.

Alguém aí já (ou) viu avião “pedindo carro”? Esse era outro som mágico. O avião de João Pinheiro “pedindo carro”.

Chegando a Natal, o aviador e os passageiros do seu táxi aéreo, pousariam em Capim Macio e precisavam de um “carro de praça”.

Meu vizinho, João sobrevoava sua casa e, a baixa altitude, balançava as asas e rraumrraumava o motor, era o sinal. D. Cleide ia pra minha casa e ligava para o 2100 ou 2300, e pedia um “carro em capim macio para João Pinheiro”.

O fim da tarde chegava com Cambraia anunciando o “Jornal de Natal” de Djalma Maranhão.

Cambraia - perfeito biótipo e porte de um príncipe banto - soltava uma cantiga que, muitos anos depois, penso ter reconhecido em Catoca, nas Lundas, no coração de Angola.

Mas aí eu já tinha crescido, os sapos haviam sido expulsos pelo asfalto e havia visto quando meu pai, poucos dias antes de sua morte, desligou para sempre seu HQ 129 X.

12.6.10

Prof. Luiz Soares: Paladino do Escotismo - II

O professor Luiz Soares em 1910 foi orador da primeira turma da Escola Normal de Natal.
Em 1907 ele reorganizou a Liga de Desportos Terrestres do RN sendo eleito seu Presidente.
O trabalho realizado na Liga levou Juvenal Lamartine, seu parente, a construir o Estádio em 1929 no Tirol.
O trabalho de Luiz Soares foi reconhecido pelos opositores de Lamartine que o indicaram para um cargo federal na Escola de Artífices, hoje IFRN. Mais delicadamente recusou para continuar no ensino do estado mesmo ganhando menos.
Foi eleito Vereador chegando a Presidência da Câmara Municipal de Natal.
Em 1950 viajou a Roma a convite de seu filho Pedro Segundo, para localizar e movimentar o processo de beatificação do Padre João Maria.
Os escoteiros tiveram participação intensa na vida natalense, especialmente em situações de calamidade, como em 1918, durante o surto de gripe espanhola que vitimou um grande número de pessoas. Em 1919 os escoteiros ajudaram a socorrer os flagelados da seca, abrigados pelo governo em péssimas condições de higiene em um terreno baldio do Barro Vermelho.
Foi por essas e tantas boas ações que Luiz Soares recebeu a comenda do Tapir de Prata, do General Baden Powell, criador do Escotismo - a mais alta honraria que um escoteiro pode receber.
Professor Luiz Soares, um exemplo para todos!



Veja também neste blog: Prof. Luiz Soares: Paladino do escotismo."

Enviada por Alexjunior Pereira de Lima, Diretor Presidente do 12° Grupo de Escoteiros Professor Luiz Soares.

3.6.10

A Feira da Tatajubeira e o Mercado de Ferro

A mais antiga feira livre de Natal foi, talvez, a que se fazia debaixo de uma tatajubeira antiguíssima e frondosa. Ela existiu desde o século XIX, na Rua Frei Miguelinho, na Ribeira. Diariamente, vinham para ali pescadores e pequenos produtores rurais, d'aquém e d'além Potengi, vender seus produtos. Nas noss pesquisas sobre Natal, encontrmos nota de 1912 sobre esta feira, e por repuá-la de muito valos, resolvemos transcrevê-la na íntegra:

"Não há hoje em Natal um só dos nossos bisavós que nos diga quatro palavras acerca da infância dessa árvore que ora serve de casa de mercado ao mais comercial e ao mais movimentado bairro desta cidade, que é a primeira do Estado. Segundo os cálculos, a árvore conta mais de duzentos anos de vida e, por sua sombra benfazeja, passaram gerações de proletários e de boêmios, uns que junto a seu tronco encostavam a descansar das fadigas do trabalho, outros, amigos do ócio e do álcool que, em noite de luar, cantavam ali canções nostálgicas ao som do violão sugestivo. Antes de ser como é hoje, casa de mercado de uma cidade fantasticamente progressiva, foi, como nos dizem os velhos pescadores, oficina de carpinteiro onde se construíam as quatro jangadas que se lançavam, a cada ano, nas águas mansas do Potengi. Ainda em nosso dias, ela tem na sua crosta rugosa os golpes antigos da enxó e dos machados dos operários, que nela experimentavam o aço da ferramenta. Nesses dias remotíssimos em que havia grandes selvas na avenida de hoje, a veneranda tatajubeira era ainda moça e bem amada e não tinha, por conseguinte, sofrido o castigo da lama que ora a invade. Se for em dia de chuva especialmente, ele (o forasteiro) passará forçosamente pela Tatajubeira - essa cloaca onde alguns quitandeiros vendem peixes, carnes e verduras. O estado desse local é mais próprio para um estábulo do que para um lugar em que se faça uma feira. O lamaçal que ali se forma com a menor chuva entedia, causa nojo e faz pensar que habitamos um brejo sem que haja a menor autoridade higiênica ou municipal que tome a iniciativa." (A República, 1912).

Consciente de que a população da Ribeira não podia continuar se abastecendo na Feira da Tatajubeira, onde não havia as mínimas condições de higiene, o presidente da Intendência, coronel Romualdo Lopes Galvão, resolveu construir um mercado de ferro, que foi erguido no quarteirão n.° 15 do bairro da Ribeira, na avenida Almino Afonso, fazendo esquina com a rua Ferreira Chaves. No dia 25 de fevereiro de 1914, na sessão "Várias", o jornal A República publicou a seguinte matéria sobre este mercado:

"Em 1923, no relatório que apresentou ao Conselho de Intendência Municipal, o vice-presidente da Intendência, em exercício, o farmacêutico Joaquim Ignácio Torres, afirmava que o "mercado de ferro que em 1915 foi inaugurado na Ribeira, tinha sido pela administração anterior entregue à Higiene Federal para nele funcionar um posto de assistência médica, com toda a sua instalação" (TORRES, 1923, p. 8). Com a entrega do prédio do mercado à saúde pública, renasceu a Feira da Tatajubeira a partir de março de 1924 por determinação do presidente da Intendência, Cel. José Lagreca. A finalidade desta restauração era o barateamento do custo de vida. Para isso, ficaram livres de impostos e de sujeira os produtos vendidos à sombra da velha tatajubeira, mercê da fiscalização municipal (A República, 29 de março de1924).

Na segunda vez que governou Natal (de 30 de outubro de 1935 a 03 de janeiro de 1942), o prefeito Gentil Ferreira de Souza fez muito calçamento a paralelepípedo no bairro da Ribeira. Neste período, ele calçou as ruas Chile, Frei Miguelinho, 15 de Novembro, Almino Afonso, Ferreira Chaves, Aureliano, a avenida Duque de Caxias e a travessa Bom Jesus (A República, 29 de outubro de 1941). Onde havia calçamento antigo, feito de pedra preta, tosca, irregular, ele substituiu por calçamento a paralelepípedo. Com o calçamento da rua Frei Miguelinho e da avenida Almino Afonso, acabou-se a Feira da Tatajubeira. Para substituí-Ia, Gentil Ferreira construiu o mercado da Ribeira, no mesmo local, onde existiu anteriormente o Mercado de Ferro, construído por Romualdo Lopes Galvão. No dia 7 de setembro de 1940, Gentil Ferreira lançou a pedra fundamental deste novo mercado. O novo prédio, dividido em três amplos compartimentos, oferecia 41 locais de comércio para os locatários. Em janeiro de 1941, ele já estava pronto (A República, 09 de janeiro de 1941).

Com a decadência da Ribeira ao longo dos anos 60, a população ali residente foi diminuindo e, consequentemente, o movimento comercial de alimentos. Anos depois, o mercado da Ribeira foi transformado em repartição da Prefeitura.

Texto de Itamar de Souza, Nova História de Natal - Enviado por José Tarcísio de Medeiros

19.5.10

A Rua Nova (Avenida Rio Branco)



A atual Avenida Rio Branco era conhecida no século XIX, como a Rua Nova. A referida avenida corta todo bairro da Cidade Alta, no trecho compreendido entre o Baldo e a Ribeira.

O topônimo Rua Nova apareceu pela primeira vez, em 12 de novembro de 1822, em um registro de concessão de terras, pelo Senado da Câmara do Natal, ao comerciante Johan Christian Voigt. O beneficiário requereu terreno "para duas casas, na Rua da Palha ... no fundo destas, na rua Nova; outras duas para o armazém ':

Ao longo da década de vinte do século XIX, apareceram outros dez registros de concessões de terras naquele antigo logradouro público. Em 28 de outubro de 1826, Antônio José de Souza Caldas requeria terras "na Rua Nova, junto ao curral do açougue', o que indicava a existência de um local de comercialização o de carnes.

O último registro existente de concessão de terras na antiga Rua Nova data de 8 de março de 1828, cujo beneficiário foi Antônio José de Matos.

Até 1845, a antiga Rua Nova servia de limite leste da Cidade, com suas casas ocupando apenas o lado voltado para o nascente. A partir dali existia um espesso matagal. Naquela rua existiu a Praça do Peixe, local onde posteriormente foi construído o Mercado Público da Cidade Alta. No século XIX, erguia-se naquele local, hoje ocupado pela agência Centro do Banco Brasil, a forca destinada à aplicação da pena de morte.

O decreto municipal, de 13 de fevereiro de 1888, substituiu o antigo topônimo para Visconde do Rio Branco, homenageando o eminente estadista José Maria da Silva Paranhos, Visconde do Rio Branco.

José da Silva Paranhos nasceu na cidade de Salvador BA, em 1819. Ingressou na Academia Real de Marinha do Rio de Janeiro, em 1835. Após concluir o curso, foi nomeado Guarda-Marinha, aos 22 anos.

Em 1843, passou ao posto de 2º Tenente, depois de cursar a Escola Militar do Rio de Janeiro por um período de dois anos. Foi professor da Escola de Marinha, catedrático de várias disciplinas na Escola Militar, diretor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Promulgou reformas no ensino primário.

José Maria da Silva Paranhos foi jornalista, atuando como redator do jornal "Novo Tempo". Político e militar foi membro da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, secretário do Marquês do Paraná em missões diplomáticas, no Uruguai. Foi também Ministro da Marinha, do Estrangeiro e da Fazenda. Também promulgou a Reforma Judiciária, ampliou a concessão de habeas-corpus, apresentou a Lei do Ventre Livre e organizou o primeiro recenseamento do Império.

O Visconde do Rio Branco foi também Grão-Mestre da Maçonaria. Faleceu em 1880, na cidade do Rio de Janeiro.

O povoamento da Avenida Rio Branco foi efetivamente iniciado a partir de 1845, quando o presidente Casimiro José de Morais Sarmento mandou construir a Casa d'Aula e destruir o matagal que impedia a edificação de casas do lado oriental da referida rua.

Na 2ª metade do século XIX, sob influência da Missão Cultural Francesa e da Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro, a casa urbana adquiriu um novo tipo de implantação. Passou a ser construída com um recuo em relação aos limites da rua, e afastada das casas vizinhas. Exibia jardins frontal e laterais.

A Avenida Rio Branco possuiu um belo exemplar de arquitetura daquele tempo: era o palacete de João Freire, localizado na esquina com a Rua João Pessoa, que resistiu até a bem pouco tempo, apesar de já se apresentar muito descaracterizado o belo casarão, construído com um porão alto, tinha o seu acesso valorizado por Uma escadaria. Ficava o mesmo isolado do exterior, por um vistoso gradil de ferro rendilhado.

O Curral do Açougue, a Praça do Peixe e as quitandas espalhadas pela antiga rua Nova, indicavam a vocação comercial daquele logradouro público.

Em 1860, na gestão do presidente José Bento da Cunha Figueiredo Júnior, foi iniciada a construção do Mercado Público da Cidade Alta, localizado na atual Avenida Rio Branco, no mesmo local anteriormente ocupado pela Praça do Peixe. Devido à escassez de recursos, o prédio demorou 32 anos para ser erguido. Foi concluído e inaugurado, no dia 7 de fevereiro de 1892, durante o regime republicano. O local onde funcionou o referido mercado, cor responde ao mesmo hoje ocupado pela agência Centro do Banco do Brasil.

Nas proximidades da Praça do Mercado existia uma grande gameleira, conhecida como uma das tradicionais árvores da Cidade. No dia 9 de julho de 1899, ela amanheceu serrada pelo tronco, não tendo sido possível apurar o nome do autor do ato de vandalismo.

Antes da inauguração do Mercado Público, a Câmara alugava casas nos bairros da Ribeira e da Cidade Alta, para servirem de quitandas. Na esquina das atuais Rua João Pessoa e Avenida Rio Branco existia uma quitanda muito freqüentada.

O prédio do mercado teve uma existência efêmera, pois apenas 9 anos depois de sua inauguração, ele já estava em ruínas... sofreu então uma restauração, sendo reinaugurado, em 24 de novembro de 1901.

Na gestão do prefeito Gentil Ferreira de Souza, o velho mercado foi demolido, sendo construído outro prédio, mais amplo, no mesmo local. A população de Natal, que ainda não contava com os modernos recursos da "era da máquina", no campo da conservação de alimentos, era conduzida a adquirir diariamente os gêneros alimentícios.

O Mercado Público tornou-se então um ponto de encontro, um local onde eram divulgados os acontecimentos da Cidade, em primeira mão. Ali comentavam se os assuntos mais diversos, políticos, sociais e, até mesmo, "os ridículos enredos provincianos’.

O mercado da Cidade Alta foi destruído por um incêndio, e nunca mais ali foi construído um novo mercado. Todavia, aquela área da Avenida Rio Branco nunca perdeu a sua vocação primitiva. Até hoje os vendedores ambulantes insistem em expor à venda gêneros alimentícios e artigos dos mais diversos, em suas calçadas.

A antiga Rua Nova era também cenário das apresentações teatrais de grupos amadores. Em 6 de maio de 1900, a Sociedade Dramática Segundo Wanderley encenou ali, ao ar livre, o drama "Gaspar, o Serralheiro".

Existe ainda naquela avenida um significativo prédio, de inspiração neoclássica, construído nos primeiros anos do século XX. O referido prédio já serviu de quartel, depois funcionando o Liceu Industrial durante mais de 50 anos, de 1914 à 1967. Já com a denominação de Escola Industrial, o estabelecimento escolar passou a ocupar um novo prédio, na Avenida Salgado Filho.

O prédio do antigo Liceu Industrial foi posteriormente incorporado ao patrimônio da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Atualmente algumas dependências do velho prédio da Avenida Rio Branco.

Em 22 de julho de 1906, ocorreu a inauguração de um novo prédio na avenida Rio Branco. No local da antiga Casa d'Aula, surgia o Natal Clube, a mais importante sociedade recreativa da época.

Tratava-se de um lindo chalezinho, de concepção romântica, cuja cobertura era feita em duas águas, arrematada por vistoso lambrequim de madeira. No seu lugar foi posteriormente construído o Banco Nacional, prédio hoje ocupado por uma loja de confecções. A primeira árvore de natal da Cidade foi instalada no Natal Clube em 1909. Ali também ocorreu o primeiro baile à fantasia, em 1911.

O prolongamento da Avenida Rio Branco, no trecho entre a Rua Apodi e o Baldo, foi iniciativa do Presidente da Intendência, Romualdo Galvão, cuja inauguração ocorreu em 20 de março de 1916.

Aos 9 de fevereiro de 1935, o prefeito Miguel Bilro cumprindo um plano antigo, prolongou a Avenida Rio Branco até a Ribeira, através dos terrenos da Vila Barreto propriedade do industrial Juvino Barreto. Surgia assim a segunda via de acesso entre a Cidade Alta e a Ribeira facilitando o tráfego entre aqueles dois importantes bairros de Natal.


Texto de Jeanne Nesi enviado por José Tarcísio de Medeiros.

8.5.10

Anos Dourados II - Praias Urbanas


O tempo passava e o mar se tornava cada vez mais próximo, mais presente. Nos anos trinta a quarenta, ele era pouso obrigatório das famílias de classe alta, que durante o verão migravam para a areia, mudando-se completamente para as suas residências praieiras. Eles levavam mobília, pertences, empregados e, por até três meses, fixavam-se ali. Não havia visitas esporádicas à cidade. O reabastecimento dos mantimentos ficava por conta de algum criado, que ia e voltava da cidade à pé, trazendo os pacotes nos braços.
Muitas de nossas praias urbanas encontravam-se ainda selvagens, seu grande atrativo era a tranquilidade, o repouso. Natal já possuia muitos dos traços urbanos da época e as pessoas buscavam modos alternativos de vida durante as férias, fugindo da cidade. Os veraneios de antes eram bem semelhantes aos de hoje, as diferenças ficavam por conta da relação entre as pessoas, todos ali eram amigos, parentes, conhecidos ou filhos de conhecidos. Havia segurança e confiança nos nativos do lugar. Os pescadores da área ajudavam a vigiar as casas e tinham livre acesso às suas portas. Claro, o mar era um prazer para um público seleto. Contavam-se poucas casas de veraneio, mas estas congregavam bastante gente, grandes famílias com muitos filhos, primos e sobrinhos.
Os novos exploradores do mar tinham liberdade para conhecer a área e descobrir os brinquedos do litoral. O território do Forte dos Reis Magos era aberto, sem vigilância, o que o tornava cenário favorito dos piqueniques organizados na época, uma diversão que durava um dia inteiro. A rotina dos dias resumia-se a passeios, brincadeiras na areia e banhos de mar, este último, o mais apreciado. As noites ficavam por conta dos violões dos seresteiros, que reuniam toda a gente das vizinhanças nos alpendres, embalando flertes e conversas com suas canções, que fluiam ao sabor da maresia.
O médico Jahyr Navarro, antigo veranista da praia de Areia Preta, - a primeira a abrigar esse tipo de casas - acompanhou o desenrolar de três décadas naquelas areias. Ele recorda que quando menino seu passatempo favorito era escorregar nas dunas sentado numa prancha de madeira, lubrificada com um pouco de cera de vela. Isso, em 1935, muito antes de alguém associar essa prática ao esporte de neve e apelidá-la de "skibunda". Navarro lembra de detalhes do cotidiano nas praias, como o ônibus amarelo da Força e Luz, única alternativa de transporte além do bonde. "Era um ônibus amarelo da companhia de luz elétrica, que quando chovia era obrigado a ultrapassar o barro acumulado na ladeira do sol de marcha ré, as crianças o usavam como meio de chegar até a escola".
Saudoso daquele tempo, Jahyr recorda ainda a atmosfera das praias na década de cinquenta, quando se reunia com seus companheiros no bar "É Nosso", para ensaiar as marchinhas de carnaval que seriam cantadas nos bailes do Aero Clube - sucessor do Natal Clube na preferência do high society. Vem dessa época também, o surgimento da Praia dos Artistas, mais reservada que as demais. A origem do apelido deve-se a fama de ter hospedado os grandes artistas do rádio, como Cauby Peixoto, Francisco Alves e Maria Creuza, que a escolhiam por estar mais distante da concentração de pessoas. Lá eles podiam tomar banho isolados na prainha. Algum tempo depois a fama de esconder artistas começou a atrair mais gente para a praia, afastando os frequentadores ilustres, mas, deixando o rótulo.
Começava a se espalhar a moda da paquera na areia, "Conhecíamos o ‘ponto’ onde cada moça tomava sol. Elas sempre escolhiam o mesmo lugar, para facilitar o acesso dos pretendentes", afirma o médico. Claro, todo o envolvimento transcorria com muita discrição, não se sonhava ainda com as ousadias de hoje em dia.
Na década de cinquenta, as praias de Natal tiveram a exibição do que seria um traje de banho moderno. A primeira mulher a pisar vestida de maiô numa praia de Natal foi uma aeromoça espanhola, trazida por um rapaz chamado Faruk. A visão das suas curvas ajustadas na peça, que se estendia até os joelhos, desencadeou um tumulto imprevisto nos rapazes, que ameaçaram reduzir bem mais o tamanho do traje, arrancado-o aos pedaços. Felizmente, a moça foi protegida e seu maiô escapou ileso. Era a modernidade começando a arranhar nosso provincianismo.


Do texto de Clotilde Tavares

30.4.10

Anos Dourados - Praia do Meio e Dos Artistas


Os anos dourados da Praia dos Artistas começam na década de 70, quando a grande frequencia da galera que fazia teatro, artes plásticas e música começou a frequentar aquele pequeno trecho de areia. Por causa exatamente desses frequentadores é que o local terminou conhecido como Praia dos Artistas. A partir das onze horas da manhã, o pedaço começava a se encher de gente.
No barzinho que ficava embaixo do Salva-Vidas, o Caravela, ficavam os surfistas e os campeonatos de surfe também eram famosos, apresentados ao microfone com muita gíria e loucura.

À noite, nos dividíamos entre o Castanhola e o Asfarn, bares onde comíamos isca de peixe com molho rosé e sempre havia confusão na hora de pagar a conta. No Asfarn, havia uma cadelinha chamada Nuvem, adotada como mascote pela turma.

Na eleição de
1976 – se não me engano – nos juntamos todos num mutirão para eleger Sérgio Dieb nosso vereador, o que fizemos, e era uma graça ver Serginho usando paletó e gravata, dizendo "Vossa Excelência podes crer..."

Eram dias e noites de muita criação. Poesia, literatura, teatro, música, cada um naquilo que sabia fazer. Tudo isso ao som de Belchior ("Eu sou apenas um rapaz..."), Fagner ("Ave noturna"), Ellis Regina ("Como nossos pais"), João Bosco ("Transversal do tempo"), Gonzaguinha ("Doidivanas"), Milton Nascimento ("Paula e Bebeto") e Chico Buarque ("Meus caros amigos"). Bebíamos qualquer coisa que contivesse álcool e os nossos vestidos eram bordados de lantejoulas. Os rapazes (com exceção dos que faziam política) usavam camisas floridas e cabelos enormes e passávamos a noite de bar em bar. Às vezes, a violência da ditadura descia o seu punho selvagem sobre nós, e os tiras entravam nos bares, ameaçavam todo mundo, derramavam no chão o conteúdo de nossas bolsas. Mas na maioria das noites tudo era curtição na República Independente da Praia dos Artistas onde amanhecíamos o dia e muitas vezes subíamos direto para a Faculdade, onde tentávamos assistir às aulas, mortinhos de sono.

Daquele núcleo de gente maluca surgiu a Banda Gália, que revolucionou o Carnaval de rua na cidade e que também fez história, em época posterior.

Mas o movimento da vida é esse mesmo, e como diz João Bosco na música memorável não podemos ficar "parados dentro dum táxi, numa transversal do tempo". Mudamos, evoluímos, crescemos, ficamos mais velhos e hoje somos empresários, profissionais liberais, políticos e, é claro, artistas. Alguns já se foram: Sergio Dieb, Chico Miséria, André de Mello Lima, Malu Aguiar...

Não podemos mais viver aquela época, que pertence ao passado. O que dá tristeza é ver aquele belo pedaço de praia, que foi palco de um momento de intensa efervescência cultural para a cidade entregue ao abandono e ao descaso. No nome da praia – Artistas – está a sua vocação e seu destino. Talvez com um centro de Artes e um pequeno espaço para shows e espetáculos de teatro – um teatro de bolso, com uns
100 lugares – a Praia dos Artistas poderia ser conduzida de volta ao seu clima original. Fica o recado para os donos do poder e do dinheiro que, quando querem, podem e pagam.

Extraído do texto de Clotilde Tavares

25.4.10

Atheneu - Algumas reflexões


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O Colégio Atheneu Norte-Riograndense foi fundado em Natal antes mesmo do Colégio que era modelo para o Império: o Colégio Pedro II, que foi fundado em 2 de dezembro de 1837, no Rio de Janeiro, “na Corte”.
A fundação do Atheneu aconteceu em três de fevereiro de 1834, nesse dia o Padre Antônio Xavier Garcia de Almeida, vice-diretor do Ateneu, abriu o livro de matrículas das aulas no referido Colégio.
Período do Império, o Ateneu Norte-riograndense tornou-se necessário para suprir as necessidades de quadros para a estrutura social vigente, afinal a estrutura econômica estava assentada em formas de trabalho, como a escravatura, e a educação tradicional privilegiava a elite. Assim, era necessário instituir, na sociedade, uma via eficaz para formar uma classe imbuída da moral dominante, destinada a ocupar as funções públicas e liberais que começavam a se expandir.
Na cidade do Natal, em 1834, havia cinco aulas de Humanidades, intituladas Aulas maiores, eram elas: Filosofia, Retórica, Geometria, Francês e Latim. O então Presidente da Província, Basílio Quaresma Torreão (1787-1868) solicitou ao Conselho Geral da Província14, a reunião dessas cinco Aulas Maiores num Colégio.
Entendemos que é a Basílio Quaresma Torreão que devemos a existência do Atheneu, pois foi ele que teve a iniciativa de reunir as cinco Aulas Maiores num Colégio, ele amava a História, era letrado e amigo de clássicos e a ele se deve a escolha do nome.
O Atheneu funcionou no antigo Quartel Militar (Av. Rio Branco) de 1834 até 1859, pois a chegada de um batalhão desalojou alunos e professores, forçando-os a estudarem em residências. Em 1º de março de 1859, o Atheneu foi instalado no edifício da rua Junqueira Ayres, atual Secretaria Municipal de Finanças e permaneceu lá até 1954.
O prédio do Atheneu era referência na cidade e, muitas vezes, utilizada para outros fins. A Escola Normal funcionou no Atheneu de 13 de maio de 1908 até 31 de dezembro de 1910. A Escola Normal foi criada pelo Governador Alberto Maranhão a fim de preparar gente capacitada fechando algumas escolas primárias, rotineiras, retrógradas e improdutivas que havia no Estado. Quarenta e quatro anos depois, a Escola Normal e o Atheneu voltam a utilizar o mesmo espaço.
O prédio atual, construído tem formato de “X”, foi inaugurado em 11 de março de 1954. No prédio novo, encontravam-se um ginásio para prática de esportes, sessões de cinema e auditório para festas, 16 salões de aulas comuns e 8 salões para aulas especializadas.
Durante muitas gerações o Atheneu foi considerado o melhor colégio do Estado, um pólo para transmissão cultural e ao mesmo tempo, um meio de traçar limites entre o secundário e o superior. Foi fundamental na vida da cidade e das pessoas que viveram desde a década de 1830 sempre motivando apreensões discursivas e suas práticas culturais como estratégias de pensar.
O Atheneu sempre atendeu, mesmo que de forma não intencional, a alguns pressupostos que norteiam a pedagogia do contemporâneo. Antes não havia reuniões de pais, mas o ensino correspondia à proposta básica das famílias para a educação dos seus filhos. Assim procuramos ressaltar a importância do Atheneu na vida de nossa cidade..
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Extraído da tese de Liliane dos Santos Gutierre

17.4.10

Praça José da Penha - Ribeira



A atual praça José da Penha, em frente à Igreja do Bom Jesus das Dores, data, provavelmente do século XVIII.
A igreja denominou o logradouro até 1902. A Resolução Municipal n.º 74, de 05 de dezembro daquele ano, denominou praça Leão XIII, considerado um papa adaptado ao seu tempo.
Até a primeira década atual, a praça não passava de um descampado. Em 1919, o major Fortunato Aranha, intendente municipal construiu uma pracinha no local, incentivado pelo padre Pedro de Paulo Barbosa, vigário da Igreja do Bom Jesus e diretor espiritual do Seminário São Pedro, também jornalista, filólogo e filósofo.
A praça Leão XIII foi inaugurada em 12 de outubro de 1919, com a presença do governador Ferreira Chaves. Passou, então, a ostentar belos canteiros floridos e um coreto de alvenaria. Durante algum tempo, foi o ponto de encontro da alta sociedade da cidade, na época e onde circulava a juventude. A denominação Leão XIII foi decidida após serem divulgadas as realizações do pontífice: antes tinha-se cogitado outro nome para o lugar.
Finalmente, a 11 de outubro de 1930, a praça teve seu nome mudado para José da Penha, homenagem ao militar nascido em Angicos, que atingiu o posto de alferes a 03 de novembro de 1894. O capitão José da Penha tinha grande espírito de justiça e pregou a justiça social e a probidade administrativa. Foi defensor dos jovens, dos trabalhadores e o primeiro militar norte-rio-grandense a apelar diretamente em favor do nosso povo. Distinguiu-se pela oratória.
Em homenagem ao ilustre potiguar, Natal deu seu nome à praça da Ribeira, em frente ao Fórum Municipal do Natal (antigo Grande Hotel), local onde existiu o casarão onde morou o capitão José da Penha.
Da praça inaugurada em
1919, muito já se modificou. Teve sua área reduzida,
cortada para que se fizesse o prolongamento da avenida Tavares de Lira.

Texto extraido da publicação "Circuito Histórico, Turístico e Cultural de Natal" - Semurb