7.9.09

Em memória de Martha Salem (*)


Faleceu no dia 28 de agosto de 2009 em Natal e foi enterrada no Cemitério de Nova Descoberta dona Martha Wanderley Salem, assuense de velha estirpe, prima em segundo grau da Baronesa de Serra Branca, D. Belisária, primeira grande proprietária rural potiguar a libertar seus escravos e a recepcioná-los com um jantar em que, vestida de touca e avental, os serviu solenemente da mesma maneira como se acostumara a ser servida.
Ainda menina, o pai a levou para conhecer a prima baronesa em seu solar, atualmente a Casa de Cultura do Assu. Uns setenta anos depois, D. Martha me contava que ficara decepcionada, pois esperava encontrar uma grande personagem, luxuosamente vestida e coberta de jóias, cercada de serviçais, e deparara com uma mulher simples, falando pouco e baixo, curiosa acerca dos familiares, modestamente vestida… Era D. Belisária uma dama ascética e piedosa, sendo o seu único luxo a carruagem puxada por duas imponentes parelhas de cavalos puro sangue que a transportava do Assu aos seus domínios de Serra Branca, em Santana do Matos. Dona Martha a descrevia como uma mulher “quase sem carnes, chochinha e sem graça…”
Amiga de mais de quarenta anos, adorava ouvi-la discorrer sobre o passado da nossa querida e velha cidade. Lembro-me a propósito do quanto aprendi sobre os hábitos alimentares dos assuenses há mais de 100 anos; dos assuenses, claro, da sua categoria social e de outras peculiaridades etnográficas que eu ia buscar no fundo da sua memória.
Filha de Minervino Wanderley, tesoureiro e administrador das propriedades e bens pertencentes à Paróquia de São João Batista, que apesar de santo chegou a ser um grande latifundiário, fez parte da primeira turma de alunas do tradicional Colégio Nossa Senhora das Vitórias, administrado por religiosas austríacas que lhe ensinaram três idiomas, o alemão, o inglês e o francês.
Voluntária avant la lettre, dedicou-se por mais de setenta anos a ensinar esses idiomas, especialmente o alemão que era a língua natal de suas inesquecíveis mestras estrangeiras. Há uns cinco ou seis anos, almoçando em sua companhia, perguntei-lhe se recebera alguma vez alguma manifestação de reconhecimento do governo alemão e ela respondeu-me que não.
Nesse mesmo dia – um domingo – ao voltar para casa, escrevi um artigo a respeito e, após publicá-lo no Mensageiro Potiguar, mensário criado pela jornalista Nadja Lira, remeti-o ao embaixador alemão em Brasília, encarecendo o pioneirismo de Dona Martha como propagadora entre nós do seu idioma. Pouco depois, ela foi procurada pelo cônsul que a homenageou, se não me engano, com uma comenda…

(*) Franklin Jorge
P.S.: Dona Martha era Cidadã Natalense, título outorgado pelos Vereadores de nossa capital.

5 comentários:

Lívio Oliveira disse...

Minha homenagem a Dona Martha e também a Minervino e Caio.
Abraços!

Nivaldete disse...

Gosto muito de saber dessas histórias que, não fosse o seu blog, continuariam ignoradas... Acho que você também merece um prêmio pelo serviço que presta à memória histórico-cultural do RN. Um abraço.

Manoel de Oliveira Cavalcanti Neto disse...

Recebi a seguinte mensagem de Giovannia Elaine:
Pesquisando fotos e arquivos sobre Natal, encontrei seu blog. Gostei muito do conteúdo e principalmente das fotos. Não entendo como as pessoas não conseguem valorizar a História de seu povo. Desde já sinta-se elogiado pela iniciativa na criação desse blog que só conheci há pouco tempo, mas que, com certeza, vem desempenhando importante papel na valorização da memória de nossa cidade e das pessoas que fazem parte dela. Grande abraço!
Giovannia

Manoel de Oliveira Cavalcanti Neto disse...

Recebi do bardo José Delfino:
Li o artigo de Franklin e o post sobre mami Martha. Vc talvez não
sabe, mas dediquei um poema meu para o baixinho. Acho que, de repente não mais que de repente, estaria mais bem dedicado pra ela.
De coração. Lá vai:

não quero assento
quero o dom de seguir
de amor atento e antes
com certo acento
em rima ouvir
num beco estreito
o rarefeito som
do ar no teu peito
resgatar o sossego
a paz apascentar
ver o nó-cego
mudo espartilhar
e cantar contente
melódicas linhas
pisar com tento
sobre os meus sonhos
por onde caminhas.

Iracema disse...

Querido Franklin, que bom saber que você também está no Natal de Ontem, fazendo homenagem a uma pessoa tão especial. Parabéns!
Aguardo você em Goiânia, coração do Brasil.