27.1.11

A vida boêmia de Natal - 1939/1940

Por volta de 1939, início da II Guerra Mundial, os cabarés mais famosos de Natal situavam-se na Ribeira. Bastante freqüentados, eram muito populares, fazendo parte integrante da vida boêmia da cidade, que se iniciava depois das 9 horas da noite, quando as famílias já tinham se recolhido.
Na vida noturna provinciana encontravam-se as prostitutas, os cáftens e os gigolôs, que também serviam de inspiração aos poetas e escritores.
Naquela época, a cerveja era vendida ao preço de mil e quinhentos réis, sendo uma das bebidas mais consumidas pelos pândegos da boemia. As mulheres da zona pediam martini aos acompanhantes, que era servido ao preço de cinco mil réis a dose. A popularização do uísque ocorreu somente depois, com a chegada dos americanos a Natal.
Nos cabarés, às vezes, aconteciam pelas madrugadas brigas e pancadarias, entre os freqüentadores, sendo necessária a presença da polícia, para acalmar os mais exaltados.
Normalmente, dentro das pensões alegres existia uma figura andrógina, alegre, com requebros e trejeitos femininos, cabelos oxigenados, muito conhecida pelos freqüentadores. Por aquela época, uma era conhecida por "Afago verde".
Nesse tempo, as parteiras eram responsáveis por grande parte das vidas que surgiam. O parto era feito em casa, com o resguardo de vários dias e muita canja de galinha. Em partos mais difíceis, surgia o médico, com a sua inseparável valise e o estetoscópio.
As pensões alegres eram freqüentadas por pessoas de diferentes níveis sociais. À noite, já com o dólar correndo solto, surgiram os vendedores clandestinos, que vendiam perfumes, isqueiros, sabonetes, whiskys, cigarros, etc.
As músicas mais tocadas nas radiolas de ficha eram os tangos e maxixes, que, aos poucos, foram sendo substituídos por swings, blues e fox trotes, já na década de 1940.
Naqueles anos, apareceu na zona uma novata: morena, de olhos e cabelos negros, que circulou por várias casas noturnas e despertou a paixão de muitos freqüentadores. Os seus pretendentes eram selecionados pela disposição de abrir a carteira. Contam que ela terminou os seus dias abandonada e esquecida no Beco da Quarentena, tomando injeções diárias de "914", aplicadas por um enfermeiro da Saúde Pública aos portadores de sífilis. A profilaxia era uma lavagem à base de permanganato.
As notícias da guerra, via BBC Londrina, transmitidas pela Agência Pernambucana, antes da inauguração da REN - Rádio Educadora de Natal, eram geralmente acompanhadas pela "Canção do Expedicionário", que traduzia a saudade da pátria e a esperança de vitória dos Pracinhas Brasileiros, na Itália. Por ali se tinha notícias dos últimos acontecimentos da II Guerra Mundial na Europa.
No Cine Polytheama, na Praça Augusto Severo, Ingrid Bergman, Diana Durbin, Judy Erland e outros artistas encantavam os telespectadores.
O movimento do Porto, ali perto, era intenso, guarnecido pelos fuzileiros navais que, sob o tema "Adsumus", que significa "aqui estamos", eram admirados e respeitados pela população, em virtude do exemplo de dedicação e profissionalismo em defesa da pátria.
As notícias da noite corriam velozes, de boca em boca, e terminavam no Grande Ponto, ou no Bar Cova da Onça, na Av. Tavares de Lira, onde o garçom "Cara larga" atendia aos clientes, na parte de trás do Estabelecimento. Muitas dessas histórias já modificadas pelo povo.
Assim era a vida noturna da Natal boêmia do início dos anos 40.

Elísio Augusto de Medeiros e Silva http://almadobeco2.blogspot.com

8 comentários:

Mara Farias disse...

gosto muito de ler este blog,pq fala de um tempo mágico,que eu nunca vi,e que sempre falam!
Gostaria de ter vivido!
=)

A Cara da Poesia

JabacomJerimum disse...

A Natal de Ontem era muito melhor que a Natal de Hoje: entulhada de carros, nitrato na água, poluição,especulação imobilária, prostituição e venda de drogas em tudo quanto é de lugar...

Na arte com emoção disse...

Foi realmente muito mágico esse tempo. Em meados de outubro ou novembro de 2011, o grupo de teatro UnP Encena estará apresentando um espetáculo que ressaltará o brilho das décadas de 40 e 50, da chegada dos soldados americanos, as noites da boemia e as estadias no cabaré de Maria Boa, será uma mágica viagem no tempo!

Sandemberg Oliveira-(84)8727-5252

Júnior disse...

Não vivi essa época, mas graças ao blog posso ver como era nossa querida cidade antigamente, ótimo post!

Luciana disse...

Continue escrevendo! Sua narrativa é gostosa, nos transporta, emociona. E o arquivo de fotos e textos sobre a amada Natal acalenta a alma dos provicianos errantes. Continue!

flavia maia disse...

O GRUPO DE TEATRO DA UNP ESTARÁ RETRATANDO ESSA BELÍSSIMA ÉPOCA QUE NOSSA CIDADE VIVEU. NO DIA 19/10 AS 20H NO TAM. EU FLÁVIA MAIA ESTOU FELIZ DA VIDA POIS ENCENAREI UMA DAS MAIS IMPORTANTES PERSONAGENS DESSA ÉPOCA. FAREI O PAPEL DE MARIA DE BARROS(MARIA BOA).UMA MULHER FORTE QUE MARCOU E MARCARAR PARA SEMPRE A CIDADE DO NATAL.

Thiago Gonzaga disse...

Ola amigo, ajudem a divulgar as obras literárias do Rn, nossos autores potiguares agradecem.
muitas das nossas obras precisam ser relançadas e reeditadas.


literatura potiguar !

101 livros do RN
http://101livrosdorn.blogspot.com/

Acessem e divulguem !

grato

Leandro Cunha disse...

"Os seus pretendentes eram selecionados pela disposição de abrir a carteira".

É assim até hoje