A Carta de Pero Vaz de Caminha, datada de 1º de maio de 1500, além de ser considerada nossa “certidão de nascimento”, é classificada como um trabalho literário escrito dentro de uma tradição romântica, expressando um realismo moderado associado ao pensamento de um Portugal e de uma Europa que estavam saindo dos contrastes da Idade Média. Não deixa de conter elementos fantasiosos, mitos e retórica, mas elaborada com bastante cuidado, onde se sente a excitação e admiração pela chegada a uma nova terra, perpetuando-se até os nossos dias como uma fonte primária.
É preciso, portanto, analisar os pensamentos, os fatos e acontecimentos que estavam ocorrendo quando da sua produção, levando em conta o contexto histórico, limitado pela cultura letrada até o fim do século XV e o fato de que o seu destinatário, D. Manuel, fosse um monarca absolutista submetido à fé cristã, sob uma igreja também absolutista.
Pela sua forma de diário e pelo que expõe, a carta insere-se no gênero bem português da época, como se verificava com os diários de navegação, os mapas, relatórios e as cartas que documentavam e informavam sobre lugares distantes.
Caminha selecionou aquilo que considerou relevante ao dizer que “… aja aquy de poer mais caaquilo que vy e me pareceo”, de modo que ao longo do texto percebemos evasivas e lacunas. A humildade e obediência se faz presente antes do início da narração evocando para si o caráter verossímil, mas sugere a incerteza.
Além dos pronomes de
tratamento: senhor, vossa alteza, também incorpora termos quanto a posse do
Rei: vossa terra, vossa terra noua. Monte Pascoal e Terra da Vera Cruz,
carregam em si a religiosidade portuguesa, dando legitimidade à paternidade da
nova terra.
Na Carta, ele paulatinamente narra os fatos, descrevendo em detalhes como uma pintura ou uma foto, recriando com palavras as coisas vistas por si, fazendo-o por meio de seu conhecimento de mundo, de suas vivências e experiências pessoais e do léxico da época. Somente publicada em 1817, no Rio de Janeiro, veio se tornar nossa “certidão de nascimento”, romântica, logo de início foi entendida como documento que legitimava nossa origem, já que é o registro escrito no próprio teatro dos acontecimentos, com detalhes até hoje ainda não explicitados.
A precisão matemática com que narra a chegada à costa brasileira é uma escolha retórica que configura veracidade aos dados narrados em toda a carta, chegando ao requinte de anotar as profundidades, distâncias das naus do litoral, ventos e direções.
Descreve, gradativamente, a incomunicabilidade inicial com os habitantes até alcançar um estado de comunicação física, emocional e espiritual. Confirma a fertilidade e a grandiosidade da terra, mas afirma desconhecer a existência de ouro, prata ou outro metal, que era um dos principais objetivos dos reis portugueses para gerir o sistema mercantil, movimentando a maquinaria catequista e a conversão de novos povos ao cristianismo.
Encontramos no texto, a descrição física dos homens e das mulheres e as marcantes distinções com a cultura europeia. A primeira característica visível na descrição é a coloração da pele, observando que não portavam roupas e não tinham vergonha de se expor, não podendo deixar de notar que destaca uma inferioridade deles e a necessidade inequívoca de colonização. A seleção dos assuntos, a disposição das colocações, a escolha do vocabulário, a elaboração dos períodos, obedecem ao mesmo rigor. A carta em todo seu conteúdo não deixa de ser um conjunto exato e belo, lembrando que na Armada seguiam os melhores pilotos e capitães.
Traduções que distorcem
No entanto, as traduções do português arcaico para o português contemporâneo, muito do que aquele português letrado do século XV transmitiu ao el-rei D. Manuel, foi distorcido, na própria tradução e com a colocação de vírgulas, pontos, parágrafos, maiúsculas, junções de palavras etc., lembrando que a primeira gramática da língua portuguesa surgiu em 1536.
No texto muitos fatos foram omitidos e outros desconsiderados pela historiografia oficial alterando, principalmente, o lugar onde a armada comandada por Pedro Álvares Cabral chegou.
Recorrendo a historiadores de cronistas dos anos Quinhentos, como Duarte Pacheco Pereira, Damião de Góis, João de Barros e Fernão Lopes de Castanheda, entre outros, chegamos à conclusão de que o Brasil foi descoberto no Rio Grande do Norte e não na Bahia. O que foi omitido por Caminha, não foram considerados embora relatados por cronistas e historiadores do século XVI, que tiveram acesso aos documentos que posteriormente foram perdidos, destruídos, incendiados ou roubados.
Pontuação reveladora
Alguns trechos da carta:
Folha 2 = “fomos de lomgo e mandou ocapitam aos nauios
pequenos que fossem mais chegados aatrra e que, se achassen pouso seguro
peraasnaaos que amynassem.” (Fomos de longo, e mandou o capitão aos navios
pequenos que fossem mais chegados à terra e que, se achassem pouso seguro para
as naus, que amainassem) – exemplo de junção e de colocação de vírgula
inexistente no original.
Folha 12 = “chentada acruz cõ as armas e deuiva de vossa alteza que lhe prim° pregarom armarom altar ao pee dela.”. (chantada a cruz com as armas e divisa de Vossa Alteza, que lhe primeiro pregaram, armaram altar ao pé dela.) – nota-se a ausência de vírgulas no original e significado da palavra “pregarom”. Na tradução, esse trecho foi separado com a colocação de uma vírgula após o termo “pregarom” além de o utilizarem com o significado de “fixação” , quando pode ser relativo ao próprio “fixar, afixar, chantar etc.” , dependendo do contexto de forma a dar diversas situações.
Na frase original, sem vírgulas, (A cruz) que chantaram
em homenagem a ele (o rei).” ou “(A cruz) que chantaram para ele (o
rei).”, ou seja, “que lhe pregarom”, “que chantaram a ele” (referindo-se,
quase sempre, ao rei ou a alguma autoridade, como Deus, dependendo do texto).
Quanto à interpretação gramatical:
que → pronome relativo, retomando
algo anteriormente mencionado (no exemplo, à cruz).
lhe →
pronome oblíquo dativo = “a ele” (geralmente se refere ao rei ou a Deus,
dependendo do contexto).
Resumindo, na forma arcaica: "que lhe pregarom...",
corresponde na tradução moderna: "que pregaram para ele / que pregaram
em sua homenagem / que chantaram (ou afixaram) para ele / que chantaram (ou
afixaram) em sua homenagem...".
Assim sendo, a tradução
correta é: “chantada a cruz com as armas e divisa de Vossa Alteza que afixaram
em sua homenagem armaram um altar ao pé dela. Alguns dirão que essa
colocação é ambígua e dirão que se referia à cruz de madeira, mas na realidade
o escrivão se referia ao padrão de posse em pedra também conhecido e denominado
marco de posse, que também era chamado de cruz, porque tinha gravada uma na sua
face anterior superior.
Segundo Damião de Góis,
guarda-mor da Torre do Tombo por mais de 20 anos, na sua “Crônica do
Felicíssimo D. Manuel”, afirma: “antes que Pedralvarez partisse desse
lugar, mandou poerem terra hũa Cruz de pedra quomo por padrão, com que tomaua
posse de haquella prouincia, pera Coroa dos Regnos de Portugal, a qualpos nome
de Sancta Cruz,”.
João de Barros em "Décadas
da Ásia" e Castanheda em "História
do descobrimento e conquista da Índia pelos portugueses" afirmam que
foi feita uma cruz de madeira, mas que foi fixada em uma árvore bem alta para
ser vista de longe.
Damião de Góis, em seus textos, refere-se à colocação de “cruzes
com as armas reais” em terras conquistadas, como símbolo de soberania. João
de Barros descreve padrões como “cruzes com as armas de Portugal”,
associando-os à fé cristã e à autoridade régia. Fernão Lopes de Castanheda
narra a colocação de “cruzes de pedra” com as armas de D. Manuel.
Logo, para três dos principais autores do século XVI, a
cruz não é apenas um objeto religioso - ela é o símbolo da presença portuguesa,
da fé cristã e da autoridade do rei. A fusão entre cruz e padrão mostra como o
Império Português se via como missionário e conquistador, legitimando sua
expansão com base na fé e na lei régia. Assim, a cruz representava não só a fé
cristã, mas também a presença política e jurídica de Portugal. A prática era
comum nas descobertas marítimas, como no Brasil, África e Ásia. A cruz é tanto
um símbolo cristão quanto um emblema do poder régio, fundindo religião e
política.
Marco ignorado
O planisfério de Cantino, baseado no padrão real, atualizado logo depois do retorno da armada a Lisboa em julho de 1501, procedimento adotado após o retorno das expedições exploratória , foi adquirido por Hércules de Ferrara. O planisfério mostra uma longa costa com mais de 2000 milhas. Depois dessa longa navegação na costa de Sancta Cruz,, citada por muitos, Cabral "seguiu de longo contra o Leste rumo ao Cabo da Boa Esperança".
A cruz de madeira foi
consumida pelo tempo, mas as cruzes de pedra permaneceram e estão preservadas.
No Brasil, só existem dois marcos de posse: o Marco de Touros, o primeiro deles,
chantado na Praia do Marco (RN) e o Marco de Cananéia (SP) chantado em Cananéia.
A praia do Marco dista aproximadamente 2.000 milhas de Cananéia.
Na Praia do Marco, aonde Cabral chegou e fez a primeira aguada chantando o padrão de posse, foi Descoberto o Brasil! E navegando obra de 2000 milhas ao longo do Canal de D. João II, garantiu o direito e exclusividade quanto ao Atlântico Sul e o monopólio do comércio com o Oriente por muitos anos.
fontes: autores
e personagens citados e o livro
“BRASIL 1500, A VERDADE – No
Rio Grande do Norte foi Descoberto o Brasil”




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