21.1.09

A administração Omar O’Grady...


A administração Omar O’Grady (1924-1930) e a modernização urbana de Natal.

Os recentes estudos sobre a história urbana e urbanística de Natal têm procurado desvelar os seus processos de construção e constituição do espaço urbano, os seus agentes transformadores, os planos, o ideário de modernização, os avanços técnicos, enfim, a influência de todos estes fatores na conformação do seu território, do seu “espaço real vivido“1.
Dentro desta perspectiva, os anos compreendidos entre a Proclamação da República - que, no Rio Grande do Norte, marcou o início da ascensão da oligarquia Albuquerque e Maranhão, liderado por Pedro Velho - e o final da década de 1930 podem ser analisados à luz do processo de “desconstrução da Natal colonial”; ou seja, o período que assistiu a passagem da cidade oitocentista para uma outra, moderna, capitalista.
Obviamente, o século XIX não abarcava mais o período colonial brasileiro; contudo, é nele que estão impressas as marcas dos séculos anteriores, da época da dominação portuguesa. Se em cidades como o Rio de Janeiro este processo de transformações se iniciou no primeiro quartel do oitocentos (com a vinda da Corte Portuguesa, em 1908, e a Missão Artística Francesa, em 1816), em Natal, São Paulo e Santos, por exemplo, o que chamamos “desconstrução da cidade colonial” ocorreria de forma decisiva a partir dos últimos anos do século XIX e nas primeiras décadas do XX: as reformas nos centros urbanos, nos portos, a abertura de avenidas, a expansão horizontal e o início da vertical, entre outros fatores, concorreram para a estruturação de uma nova “imagem da cidade”, suplantando aquela herdada do período colonial.
Um dos momentos mais importantes deste processo, para compreender a atual cidade do Natal, foi empreendido na década de 1920, no período delimitado pela administração do engenheiro Omar O’Grady (junho de 1924 a outubro de 1930)2. Tão repleto de significações e complexidades que Câmara Cascudo, em seu livro “História da Cidade do Natal”, pôde afirmar que O’Grady havia tirado Natal de sua letargia setecentista e a “pousado”, finalmente, no século XX. A afirmativa, forte e emblemática, referia-se a uma das quatro grandes obras realizadas no período da administração O’Grady (1924-1928): o calçamento da Av. Junqueira Ayres, a ladeira íngrime e único acesso então entre os dois bairros originários da cidade.
“O antigo aterro colonial foi lentamente sendo substituído por pedras soltas, empedrado, trilha, calçada, paralelepípedo. Várias vezes o aclive foi rebaixado. A história termina quando o prefeito Omar O’Grady venceu o barro, tirou as pedras e vestiu a ladeira com o calçamento que resiste a tempo, água e esquecimento3.
A obra começou a pôr fim no distanciamento e isolamento entre os bairros da Cidade Alta e Ribeira, característicos da conformação colonial da cidade, que tanto tempo perdurou. “A possibilidade de comunicação imediata, fácil, barata, aproximou os dois núcleos de população”. Punha-se fim aos gritos de guerra. “Xarias e Canguleiros morreram. Ficou o Natalense...4”.
As outras três grandes obras que marcaram este período foram: a reforma do Cais Tavares de Lyra, o calçamento e o aformoseamento da Praça Augusto Severo e da Avenida Atlântica (atual Getúlio Vargas), inseridas em um modelo de modernização que tinha nas obras de pavimentação o signo palpável de progresso5. Este sentido de progresso, que tenta materializar os anseios despertados pela vaga modernista que atingira Natal e pelas possibilidades de crescimento criadas com o advento da aviação comercial, encontrou respaldo na figura do engenheiro e administrador O’Grady6.
Filho do canadense, de ascendência irlandesa, Alexander James O’Grady e da potiguar Estefânia Alzira Moreira O’Grady, o prefeito Omar O’Grady nasceu em Natal, a 18 de fevereiro de 1894. Após fazer o primário e terminar os seus preparatórios no Atheneu Norte-rio-grandense, embarcou para Chigaco, EUA, no início da década de 1910, para cursar Engenharia pelo Illinois Institute of Technology. Formou-se em 1917 e, apenas em 1920, retornou ao Brasil para trabalhar nas Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas, IFOCS. Em 1923, foi contratado pela firma inglesa Norton Griffth and Company para o cargo de superintendente na construção da barragem do Acarape, Ceará. Casado com Isabel Dantas, primogênita de Manuel Dantas - que havia sido recém-nomeado pelo presidente do Estado José Augusto (1924-1927) à Intendência Municipal de Natal, Omar O’Grady retornou a cidade para ocupar um dos cargos de intendente. Com o falecimento prematuro do seu sogro, O’Grady assumiu a presidência da Intendência em junho de 1924, cargo que ocupou até outubro de 1930.
Os primeiros quatro anos da administração foram o ensaio da sua formação americana na forma de gerir a cidade. O discurso pelas contas equilibradas do município frente à exigüidade das rendas (embora a sua administração tenha sido acusada de diversas irregularidades pelo governo de interventores que assumiu em outubro de 19307), o controle total sobre o espaço urbano, submetendo todas as atividades às restrições e regulamentações da Intendência (por exemplo , a concessão de licenças para os horários de abertura de lojas, para construção, reforma e remodelação das casas, para a compra e venda de imóveis, etc.), o controle social, cadastrando os ambulantes e reprimindo terminantemente a mendicância, a limpeza pública, o embelezamento da cidade e, principalmente, a ênfase na melhoria das condições de tráfego nas vias urbanas, com a pavimentação à macadame pixado, paralelepípedo, e a drenagem das águas pluviais (num modelo de urbanização extensivo ao automóvel como também o foi, de certa forma, o Plano de Avenidas formulado pelos engenheiros Prestes Maia e Ulhôa Cintra para São Paulo em 1930), são os aspectos que caracterizaram os primeiros quatro anos da gestão de Omar O’Grady. Preparavam, assim, as bases para a proposição de um Master Plan que pudesse configurar Natal como “Caes da Europa8.
Em janeiro de 1929, Juvenal Lamartine renomeou Omar O’Grady para a Intendência e assumiu com este a tarefa de preparar Natal para o “futuro grandioso” que adviria de sua fundamental posição geográfica para a aviação comercial. Para tanto, foi elaborado o Plano Geral de Sistematização, de autoria do arquiteto greco-italiano Giacomo Palumbo9, este seria o arremate da administração de Omar O’Grady, o fecho das iniciativas desenvolvidas durante mais de cinco anos em prol da modernização da cidade, articulando e incorporando as obras realizadas às propostas inseridas no Plano.
O plano trazia, já nos termos do seu contrato elaborado por Omar O’Grady em abril de 1929, elementos inovadores à forma de gestão do município, embasados nas experiências recentes do urbanismo moderno, abarcando a cidade como um todo: o macro-zoneamento funcional (que implicaria numa divisão sócio-espacial segregada), a proposição de uma comissão do plano da cidade, de inspiração norte-americana, para garantir a sua continuidade (independente das sucessões administrativas) e a participação da população (embora ainda de forma muito restrita), a reestruturação do sistema viário (com o aumento dos acessos entre a Ribeira e a Cidade Alta) e a preocupação em torná-lo exeqüível (com a aprovação da Taxa de Benefício em junho de 1930, através das Resoluções nºs. 318 e 319, vulgarmente conhecida como “imposto do calçamento” baseada no benefit assessment americano).10
Portanto, mesmo com todas as críticas ao processo de “descontrução da cidade colonial”, aos seus aspectos segregadores e elitistas, no Brasil e em Natal, em particular, não podemos negar a importância do engenheiro Omar O’Grady para o estudo e a compreensão da história da Cidade do Natal. Mesmo corrigindo, retificando, calçando ruas, a remodelação de Natal nos anos 20 baseava-se na estrutura existente da cidade, no aproveitamento da topografia, numa visão global da cidade. Embora não queiramos fazer uma apologia deste processo nem irrelevar seus aspectos negativos - muito ao contrário, este era um quadro muito diferente daquele que irrompeu a partir de meados da década de 1940, disperso, fragmentário.
Por George Alexandre Ferreira Dantas

2 comentários:

Bebel disse...

Eu sou neta de Omar O'Grady e me orgulho e ver nessa reportagem o reconhecimento do grande homem que ele foi. Um exemplo para todos nós, que tivemos o privilégio do seu convívio, não só pela sua personalidade afetuosa e otimista , mas pela sua visão sempre à frente do seu tempo o que nos orientou a seguirmos o mesmo , em nossas vidas.

Faby Suarez disse...

Cara Bebel,
Nós natalenses, só temos a agradecer ao seu avô o que ele fez pela nossa cidade, transformando-a, hoje, numa cidade moderna e de grandes vias. Infelizmente, ele é pouco lembrado na cidade, que deveria ter seu nome na principal avenida da cidade. Esse erro tende a ser corrigido agora, quando a avenida Prudente de Morais, em seu prolongamento, indo chegar ao aeroporto, toma o seu nome, numa justa homenagem a um grande homem.