14.11.09

Os índios somos nós?


Alguns historiadores relatam que em 1497, Vasco da Gama aportou no litoral potiguar. Outros descrevem que Colombo esteve também por aqui nessa época acompanhado do navegador português Duarte Pacheco Pereira. Todavia, somente em 1501 foi fixada o primeiro Marco de Posse colonial da terra brasileira por Portugal, atualmente conhecido como o Marco de Touros.

Praticamente havia duas ramificações indígenas nas terras do RN: os índios Potiguara descendentes dos Tupis que habitavam o litoral e os Tarairiu oriundo dos Tapuias então habitantes do sertão. Atraídos pelas riquezas do Novo Mundo, chegaram ao nosso litoral os primeiros corsários franceses em busca do pau-brasil, árvore do qual se retirava corante, muito utilizado em tecidos na Europa. Os franceses tinham uma relação comercial com os potiguaras denominada escambo, os indígenas levavam a madeira para a praia na forma de tronco e em troca recebiam quinquilharias.

Preocupados com a permanência dos franceses no litoral, a Coroa portuguesa resolve dividir suas terras em 15 capitanias hereditárias, estando elas limitadas pela linha fictícia do Tratado de Tordesilhas, através do qual Portugal e Espanha haviam dividido os territórios da América. A Capitania do Rio Grande foi doada a Ayres da Cunha e seu sócio João de Barros que, em 1635 organizaram uma expedição com 10 embarcações fortemente armadas para expulsar os franceses que naquele momento tinham como aliados os índios potiguaras e juntos defenderam-se dos ataques portugueses conseguindo rechaçar a expedição. Após passarem quase 100 anos de domínio francês em nosso litoral, é que a conquista portuguesa obteve êxito, dando início à construção de um forte nas margens do Rio Grande, hoje Potengi. Em 25 de dezembro de 1599 foi fundada as margens do Rio Grande a “Povoação dos Reis” que só veio a se chamar “Cidade do Natal” em 1614.

Os Holandeses foram obrigados a fugir da Bahia em 1625, não desistiram e conquistaram Pernambuco em 1631, ocupando o Rio Grande em 1633. O forte foi denominado de Castelo de Ceulen e Natal de Nova Amsterdã. Fizeram alianças com os tapuias e conquistaram o engenho de Cunhaú, porém, em 1654 depois de 24 anos de domínio foram definitivamente banidos do Brasil.

Em meados de 1961 a população da “Cidade do Natal” chegava a 150 mil habitantes depois de 340 anos de existência, praticamente todos esses moradores, essas pessoas, tinham um vínculo familiar, um parentesco, mas a população cresceu e nos dias de hoje, alcançamos 800 mil habitantes de desconhecidos. A migração e imigração tornaram a cidade lotada de pessoas de todas as origens e credos, muito deles endinheirados comprando extensões de praias ao longo do nosso litoral a fim de construir hotéis e resort para diversão de turistas estrangeiros.

O escambo é pela moeda, os índios agora somos nós, entregamos nossas areias brancas onduladas pelo vento, as nossas dunas reluzentes banhadas por praias praticamente virgens, habitadas por pescadores e veranistas com o intuito de favorecer o desenvolvimento sustentado, aumentando a pretensa arrecadação e divisas para o nosso Estado.

A bela praia de Ponta Negra é um exemplo típico, a calvície do morro do careca expandiu a ponto de ser proibido a sua subida, ao seu arredor empreendimentos vão à justiça para edificar prédios altos, bem altos, competindo com a altura do morro, podendo modificar a paisagem, simplesmente para habitar moradores que façam escambo. A Ponta Negra de hoje jamais voltará a ser da época que conheci, com suas redes pescando cardumes de tainha e pescarias de xaréu em Alagamar. Ponta Negra não pertence mais aos moradores antigos de Natal, a vila dos pescadores não pertence mais aos antigos pescadores, a bela praia de Ponta Negra pertence aos donos de Hotéis e Pousadas que lotam de turistas estrangeiros muitos deles a fim de realizar escambo para sua própria diversão, Ponta Negra atualmente è, uma terra de ninguém.


José Eduardo Vilar Cunha - Jornalista e professor UFRN

4 comentários:

Luiz Lima disse...

Muito interessante esta postagem.
E' absolutamente importante e urgente abrir os olhos para esta situaçao... No minimo, que sejam fortalecidas as ja existentes ou criadas novas leis que vinculem essas transaçoes imobiliarias "alienigenas" a rigorosos criterios de proteçao ambiental como tambem do contexto da cultura local.

Mary disse...

Oi Neto!
Teu blogue sempre me deixa historicamente atualizada. Tudo bem ctg?
Bjs

Francisco Martins disse...

Visitando seu blog, passo a ser um seguidor diário. É bem o que procuro. Gosto muito da literatura potiguar e como essa vive associada a história, creio que aprenderei muito por aqui. Ademais, as fotos antigas são uma viagem. Parabéns. Onde fica esta casa? Seria porventura na esquina na Praça Pedro Velho onde hoje é um hotel?
Abraços

Iracema disse...

Neto, recentemente minha irmã foi a Natal. Em Ponta Negra, aconselharam a ela não escalar o Morro do Careca, pois correria o risco de ser assaltada. Um absurdo! Onde estão as autoridades que não se pronunciam?